«Magoas as pessoas que mais gostam de ti e amas as que mal te tratam; questiono-me, por vezes, se não serás masoquista.»
Cerro os dentes bem forte, comprimo com toda a veemência, um contra o outro, os maxilares; desdenho com o olhar, utilizando-o como se fosse superior – a estas palavras, a esta pessoa. Altero a expressão facial, deixando sobressair um sorriso sarcástico; pretendo tão somente conquistar mais algum tempo para formatar um resposta (a mim) conveniente: odeio perder em disputas verbais, como se a mencionada superioridade existisse de facto. Obviamente, respondo. Não convenço, contudo a outra pessoa esgotou as palavras para a sua argumentação (ou simplesmente adormeceu com a seca a que a obriguei). Mesmo sabendo que não ganhei realmente, sinto que ganhei em forma: e assim, novamente, julgo provar uma vez mais o sabor da vitória; lá consegui, dilatei, ainda que de maneira superficial e idiota, o meu tão precioso ego – tudo, ou quase, que ainda vai restando e sobrevivendo. Na verdade não ganhei nada: adiei, como hábito, a questão de cerne. Mas o que importa é o ter ganho, afinal não ganhei mesmo, nem que o seja na mais insípida das efemeridades? Uso os louros de César, como tivesse eu concretizado algo de grandioso. (Porque será o ego tão determinante da minha maneira de agir, num tal patamar que diria ter criado um modus operandis ridiculamente estereotipado?).
Longe deste acontecimento desconheço o móbil que me impeliu a referi-lo. Hoje o dia está diferente, mais próximo em condições atmosféricas da estação do ano em que nos encontramos: céu encoberto, vento relativamente forte, ainda que a temperatura se mantenha razoavelmente amena. É sempre a mesma coisa todos os anos, duas vezes, a saber, por cada um em particular. Com o fenómeno das alterações climáticas, altera-se igualmente o meu humor: tanto estranho, a nível da psique, a passagem do frio para o calor como do calor para o frio; passo inevitavelmente pelo mesmíssimo ritual de habituação.
Desprezo aqueles que de facto se preocupam? Sou tristemente servil para com os que, na melhor das hipóteses, são para comigo indiferentes? Não. Não sou masoquista. Não sou assim, definitivamente. Aliás, considero inclusivamente que se trata de uma falsa questão. É uma questão de percepção e, mais ainda, os fenómenos não são assim tão lineares, preto no branco, como se diz. As ambiguidades são constantes, requerendo uma hábil postura de adaptação ao real vivido. Deve evitar-se ser-se peremptório em delinear taxativamente fronteiras entre fenómenos que não devem ser julgados separados isoladamente, excepto de uma perspectiva unicamente analítica (e mesmo assim...). Representamos todos o nosso papel, papel esse que também se pode submeter a representações, ou encenações, adicionais; Tanto que se joga (cada qual com as suas habilidades) no universo das aparências!
Pouco pesco – entendo – disto que é a vida (ou talvez seja mais correcto dizer viver). Nem por isso deixo intimidar-me, isto é, não me inibo de vivê-la. É interessante observar alguém que nada percebe fazer de conta que percebe; e, melhor que isso, convencer outros de que percebe. É um paradoxo desconcertante, mas simultaneamente coisa que me alicia sobremaneira. É delicioso constatar o quanto a nossa representação é convincente face aos outros que, obrigatoriamente, se encontram fora de nós. Assim sendo, não estou perdido nem encontrado, vou deixando que os factos se desenvolvam quase em total espontaneidade, interferindo aqui e ali um pouco com esta ou aquela atitude ou postura. O certo é que, por maioria de razão, os factos se desenvolvem grandemente por si em infindáveis interacções face a face.
Terminando.
Tenho perfeita noção da maioria daqueles que se importam. Desses, guardo a maior estima. Dos outros, do oposto, não recordo ninguém que realmente importe. Mas também tenho perfeita noção de que não existem sentimentos puros: por algum motivo se constata vezes sem conta, mais do que desejaríamos, que aqueles que mais nos magoam são aqueles que temos como os mais próximos; e vice-versa.
Moral da história? Nenhuma. É só uma história; uma história de se ir vivendo.