Amanhece mais uma vez; tudo igual, o mesmo sol, a mesma rotina, a mesma (não) vontade. Gostar deixou de ser um prazer, tornou-se incipiente: um descuido que só raras vezes é permitido.
Saio, óculos de sol na cara: não pelo efeito da luminosidade, antes pelo anonimato que proporcionam, um rosto sem olhos. O carro pega à primeira, como de costume; põe-se automaticamente um cd, que não há paciência para os comerciais das trezentas rádios que em conluio os passam em simultâneo, e também não me apetece ouvir já as primeiras notícias do dia.
Lisboa é uma aguarela a cores, mas decido ignorá-la; em birra, julgo notar-lhe a mesmíssima atitude. Tanto faz. Começo a pensar no cão que devia ter e não tenho. Toca o telemóvel, a primeira chamada do dia; com o número ocultado, sendo que assim ignoro a sua persistente sonoridade. Devia mesmo arranjar o cão. Os pneus guincham, tirei muito depressa o pé que sustinha no fundo o pedal da embraiagem e pisei demais o do acelerador. Mais um dia, mais outro igual a ontem e a amanhã. Suspiro de enfado, saindo um pouco da apatia que me reinava. Cheira a gasolina, do isqueiro que acende o segundo cigarro do dia que parece promissor para as duas dezenas deles. Péssimo hábito, porém não o consigo abandonar: falta a vontade.
Penso que o mestrado deve estar a recomeçar. Tenho que arranjar tempo para ir à Nova. Decidi que é desta que o tenho que terminar. Penso também nas últimas semanas. Estou diferente: noto-o tão bem como o sinto. Mais calculista, mais fechado, mais politicamente correcto. Mandei para obras umas dadas secções do cérebro. Egocentrado, esboço um sorriso cínico que me sai por acaso: agora o que interessa sou mesmo eu, o resto – os outros – logo se vê, penso por fim. Fecho o ‘livro’, como quem diz, termino o post. Amanhã haverá outro; igual.
“Os donos de cavalos e carruagens de aluguer descobriram que os americanos queriam sair dos locais de entretenimento mais depressa do que entravam.”
Edith Wharton, ‘A Idade da Inocência’