Em voga está a onda do politicamente correcto; o que não corresponde com plenitude ou satisfação ao facto correcto. Manifestam-se modos de olhar aparentemente circunstanciais que tão somente o são a um raciocínio fugaz e desinteressado, percebendo-se de imediato – dadas as implicações - o quanto de ilusório têm. Grita-se vitória, mesmo que para nos consagrarmos com a derrota de outrem nos tenhamos que contentar – e enfrentar – com a nossa; é triste...
«- É isso que queres?
- É, pois. Se me quilhar... olha, logo se vê. [entre dentes: e o que sabes tu sobre quilhar, oh ser magnânimo?]
- Diz?...
- Nada, disse só que sim: que é.»
A felicidade tem um preço; é constante saber-se o ‘a que preço?’ com que latejamos a porcaria da tola com questões assim. Preço? Pois: investimento, tempo, paciência, oportunidades únicas que enfiámos de um só pensar na retrete, sonhos dos quais jamais nos sentíramos na vontade de abdicar... a lista continuaria, cansando qualquer um. E, mesmo assim, há quem tenha o descaramento de lançar no ar, como se o fizesse de forma inocente, o tal ‘pá, mas [sempre o «mas», prosa aliás incontornável] é isso que queres?’ A vontade diz que dever-se-ia responder à letra: ‘não, só estou aqui a gozar contigo’; o bom senso, esse prestável ente, contorna os instintos e lá sai um ‘pá, já sabes que sim e... [e reticências, para um discurso também igual e monótono, que poucas variantes conhece]’. Por muito que preze algumas amizade, e se prezo!, como se podem elas pronunciar se nem do que de há dez minutos atrás se lembram, o que... [novamente: reticências, que estas substituem muito] Damos o dito desconto; não estaremos nós próprios também cansados, que o raio do dia isto e aquilo, coisa que raramente corre bem, o dia, mesmo que a posteriori juremos a pé juntos que sim, que somos felizes e sempre o fôramos? Os amigos são para isso... e muito mais! [desta vez completando o branco que as reticências adivinhavam]
De cortinas veladas: é assim que muitas das vezes estes bichos, - aliás, raros: quanto sei -, pronunciam os seus juízos (ajuizares?). Velados, que o véu, à partida, os encobre da responsabilidade de comentários nunca expressos em palavras, sendo que daí se podem coibir de resmunguices nossas: é mesmo assim que o sistémico sistema funciona; quem quer, quer e quem não quer... Juízos façamos, mas ao largo que assim é mais confortável e evitam-se aborrecimentos desnecessários e indesejados (sarcástico, todavia aceita-se ou não o jogo que, logo de começo, se encontra viciado – extrapolando, parece que a verdade por si, sem a bem dita palmadinha nas costas, não satisfaz nem aparece como suficiente).
Um olhar retesado que mais busca censura para o dia seguinte do que compreensão louvada por um imaculado desinteresse respeitante a (potenciais e exigíveis) retornos. De facto, em prol de uma sociedade de consumo onde a troca é obrigação em detrimento do (da troca) desprendido(a).
Para quê cansarmo-nos para que o sistema se altere? Entremos nele, da cabeça aos pés, e que não se pense mais nisso. Afinal, «é assim mesmo, pá!».
“(...) E como surge a amizade? (...) A amizade começa como um acto sem continuidade, um salto. É um momento em que sentimos forte simpatia, um interesse, sentimos uma afinidade em relação a uma pessoa. (...)”
Francesco Alberoni, ‘A Amizade’