setembro 25, 2004

Queria uma dose de serotonina, sff

De noite escura. Um candeeiro de secretária projecta a única luz; as outras, do tecto, lá de cima, imitam uma Lua em fase nova. Cerram-se os dentes, aperta-se a alma. Descolo da rampa de lançamento para o teclado. Olho; e olho. Frenética, a batida de Future Pop, audível somente através dos headphones, convida-me a regressar ao blog: deixar mais uma marca, diz ela ou digo eu por ela; realmente não carece de importância de quem partira a decisão. Só escrever, qualquer porcaria prestará. É o que faço, sustentando que ainda estou vivo, ainda aqui estou; não duvidava desse facto, mas a rapaziada gosta disso, desse fenómeno, das certezas e, aqui o je, eu não sou diferente: quanto muito nas e pelas aparências.
Boa noite, neurose. Ou devo dizer bom dia? Não. Boa noite mesmo: ainda não me deitei: já vou.
O Outono aparece a gatinhar, chegou e quer-se ver tanto como ser visto. Pois bem, já sei que aqui estás, sei sempre quando chegas; penso que por me desequilibrares os níveis de serotonina. Paciência, sempre fui assim a fungar-te à distância. Permanece um tempo consideravelmente quente, os dias mais pequenos talvez sejam o primeiro indício; mas não me pregas tropelias, bem sei quando chegas e, quando der conta, as folhas das árvores ‘caducas’ começam a cair. Topo-te de longe, pá; escusas de te camuflar – de mim, enfim. O céu com as suas estrelas mantém-se desnudado, convite erótico para uma dança efusivamente abrasiva conquanto simultaneamente impossível. Fica para depois pá, essa história da dança.
A sonoridade electronicamente criada prolonga-se em constância: quem diria que do barulho, bem batido em tons graves, adviria o silêncio que agastado de pequenas reservas me deixa pensar... pensar ou qualquer bodega semelhante, tanto faz – chamar-lhe-ei pensar, generalizando para não confundir. A particularidade de uma discoteca privada é que podemos escolher a música que queremos, e que, àquele momento, também a nós nos quer; nada, com excepções, é assim: são circunstâncias, coisa de pouca dura dado a realidade ser, ela própria, bem diferente pois que a individualidade escolhe, à melhor das hipóteses, uma música que após tocada é substituída por outras, infinitas, dos restantes que nos rodeiam, ladeiam, estrafogam, consomem, etc, etc.
O dia nasce, ou nasceu há umas quantas horitas, deixando para mim uma síntese apenas: foi mais um. Amanhã será outro. Uns serão melhores, outros piores; verdade à La Palice. Como fariam os grandes ases, não o sendo eu, da I Grande Guerra, mais um traço vincado do lado de fora do cockpit simbolizando uma, e uma só, vitória. Enerva que assim seja, contudo vai-o sendo. Nada que apoquente, não tarda virá a manhã, o banho com os primeiros raios desse corpo celeste, manhã que entendo não dever ser reduzida à ideia de dia: analogia a fazer, então, para com a existência – o ciúme, todavia, subsiste quando tenho consciência que para o dia a manhã se encontra bem próxima e é facílimo deduzi-lo, já para a renovação de um estado de espírito não consigo avançar previsões.
A partida está preparada; o raio da nave, essa, nunca mais surge ao encontro do meu horizonte. Fico por cá, por agora. As estrelas sorriem, sem a arrogância de serem bem mais eternas, piscando o olho em sinal dum tudo bem; tudo vai lá, tudo se (re)compõe. Desce e aproveita.
Por falar nisto lembrei-me: dessensibilização. Será que resulta? Acreditas e queres? Depois da manhã vem o amanhã; deixa-o chegar, logo verás.
Por ti e para ti. Há expressões estranhas, como que se pudéssemos fingir que vivemos isolados numa ilha tão isolada quanto nós. Balelas. É sempre mais que isso. Por mim, para mim: sempre com, até o comigo.


Only time will heal you say
Your word's not therapy
That half of me is gone
My dearest treasure torn away

‘Until the End of the World’, Apotygma Berzerk

Publicado por PmA em setembro 25, 2004 04:27 AM
Comentários