A sensação de movimentar-me por terrenos pantanosos é deveras desagradável e obriga-me a julgar-me como indivíduo ambivalente; os próprios humores se tornam inconstantes, variando com a facilidade de quem troca de meias – a psicologia tem um nome para isto, uma definição que agora não me ocorre.
Do banal. Tem vindo a ser constante a indecisão quanto à atitudes a tomar; presumo qual a mais correcta, mas é igualmente a que menos me apraz. Desta forma tenho apenas baralhado ainda mais os enredos que tomam lugar na minha mente, incapacitando-me de definir uma estratégia sólida que consiga seguir, ou prosseguir, com uma estabilidade ao menos mínima. A história não é nova, por isso a razão do banal com que decidi caracterizá-la. Paciência; mas a paciência, também ela, se esgota. Prometo-me ser melhor, limar as falhas de alguns traços pessoais menos agradáveis, mas se se vê o empenho demonstrado não surtir qualquer efeito, então, até por mim próprio, deixa de fazer sentido o esforço. Porque não é mais fácil aceitar a troca, se o é em termos racionais? Ser humano é ter que viver com estes hiatos, com estes truques de luz que o cérebro em emoção nos impinge, com contingências que não domino com o/ um pensar tranquilo.
Para o geral. Cansado com os ditos afoitos truques de luz, endurece-se o espírito e encerram-se portas. Estou quase a encerrá-las a todas, pelo menos as respeitantes aos ‘módulos’ cerebrais que controlam os afectos. Encerrá-las sem perspectivas de voltar a reabri-las por tempo bastante, embora indeterminado; para sempre, duvido – não há para sempre: nem de porta escancarada, nem de porta trincafiada a sete chaves (ou nove, ou dez). Encontro-me prestes a declarar guerra, isolar-me em certa medida de certos fenómenos; poupar-me a trabalhos, declarar momento de pausa à angústia e caminhar por mim e só para mim. Ser-se objecto passível de troca é uma realidade com a qual temos sempre que viver, mas desta forma tão manifesta... começo a sentir-me demasiado derrotado. Do geral porque feita a cisão, esta sê-lo-á não para alguém em particular mas sim para toda uma generalidade de. Se assim for, e muito não restará, então quero encontrar a minha conchinha e nela permanecer, encerrado e confortável, pelo tempo que durar, bem fundo na profundeza dum oceano.
A vantagem é ter tempo próprio e voltar a encontrar virtudes onde só encontro defeito, uma reconstrução de ser moral e societal, pronto para os recontros com o quotidiano como um todo e não com partes desse todo irredutível (só analiticamente se podem separar as partes, nunca vivencialmente). Assim seja, se assim for.