Olho para um cinzeiro e faço, quase de imediato, uma absurda e estúpida analogia.
Realmente ocorreu-me que um cinzeiro pode comparar-se a paixões que vão – não necessariamente a nossa. Surge como um depósito de detritos de sentimentos que um dia foram grandiosos, com a chamada chama a assumir um papel primordial. Quando acaba um cinzeiro limita-se a receber um resto, uma pequenice que ficou e que se encontra prestes a ser apagada, irremediavelmente apagada; se, por obra do acaso, a chama permanecer acesa basta aguardar mais uns segundos, mais ou menos longos, até que se esvaia sozinha numa solidão onde inexistem mãos amigas – muito menos a mão do objecto da paixão.
Então o que fica reduz-se a uma quantidade de beatas insignificantes, já sem o sopro da vida, o que tratei por chama da paixão, exalando um desagradável odor como o de uma paixão terminada e putrefacta.
Um cinzeiro é um depósito nosso ou de outros, de coisas idas – não mais se repetirão, não há lugar para recidivas. Um lugar onde outros enterraram perenemente a paixão que por nós experenciaram. O próximo passo é simples, deixar que o cinzeiro faça o que deve, e assim devemos esquecer. Isso sim, é o mais difícil.
"I know a girl
A girl called Party, Party Girl
I know she wants more than a party, Party Girl
And she won't tell me her name
I know a boy
A boy called Trash, Trash Can
I know he does all that he can, wham bam
And she won't tell me his name
When I was three
I thought the world revolved around me
I was wrong
But you can sing, sing along
And if you dance
Then dance with me
I know a girl
A girl called Party, Party Girl
I know she wants more than a party, Party Girl
I know a boy
A boy called Trampoline
You know what I mean
I think you know what he wants"
'Party Girl', U2
Publicado por PmA em setembro 8, 2004 04:19 PM