agosto 28, 2004

O ser(-se) sensível

Por mais uma vez faço notar que excluo o termo da sua aplicabilidade somática; restringir-me-ei por conseguinte, e como de outras vezes, a qualidades, independentemente da sua proveniência orgânica, da psique ou das emoções e afectividades constitutivas do ser bicho/ animal que é o Homem (com h grande, fica feio – em forma e humanamente – excluir as senhoras; mas é a nossa língua: com virtudes e revés, enfim, vicissitudes a que não me cabe responsabilidade).

É impressionante como passo por diversos dicionários e as definições que vou encontrando referentes a este termo, sempre bastante semelhantes – o que seria de esperar –, são de uma redutibilidade... insensível! Definições que rodeiam por círculos e círculos, sustentam o mesmo, pouco adiantam, quase nada definem – despejam três ou quatro conceitos para que a definição não se iguale a nada ou a um mero adj. 2 gén., ou seja, um adjectivo aplicável, sem distinção morfológica, a ambos os géneros. Terrível, terrível! Estes professores, linguistas, filologistas, cientistas do diabo a sete... sofrerão todos de algum derivado de onomatomania fóbica? (A questão muda de figura, drasticamente, se virmos a palavra sentimento que, quanto a mim, já se trata de um afunilar do conceito que é o ser-se sensível.) Visto está que por aqui nada adianto. Parágrafo.

Deixo apenas algumas deixas, das que melhor me recordo e às quais mais importância atribuo – venho atribuindo, aprendi a atribuir, como queiram.

Ser sensível é uma propriedade, é também um estado de alma, é de igual forma incontornável como um paradigma de vida.

Ser sensível:

É abandonar um eu auto-centrado, experienciar no máximo das possibilidades o ser do outro. Viver as suas preocupações, partilhar das suas tristezas sem enfado e das suas alegrias como se das nossas se tratassem. Ser sensível é viver no/ e o outro ao máximo das nossas forças, numa entrega incondicional que não pede nada em retorno. Ser sensível é isto, sem que nos esqueçamos também de nós: ser sensível não é alienação incondicional;

É saber escutar, retorquir em palavras nobres que não o sejam apenas da boca para fora: acima de tudo o mais verdadeiramente verdadeiras. É sussurrar ao ouvido palavras amigas e doces que acalmam, que amainam o espírito e reconfortam. É um olhar que, com esse intuito, denuncia reciprocidade, uma fusão de almas numa sintonia de cumplicidade.

É o sintomático abraço de imensa ternura, ser porto de abrigo tanto como fazer do outro garante do mesmo. É partilhar afagos de cabelo, toques suaves que se arrastam pela derme numa festa que garantidamente não se esquece.

É não nos abandonarmos à resposta fácil da crueldade, que assim nos tira um peso de cima, que lançamos ao ente querido quando nos convém (amigo/a ou mais que isso).

É tomar a iniciativa até quando o que seria melhor era que o outro caminhasse para nós, escapulindo àquele ninho momentaneamente confortável que, todavia, não evita o precipitar do conflito.

É ser complacente, pois se nem sempre nós estamos de bons humores não podemos exigir o contrário dos restantes; e ver os restantes, amigos/as ou mais que isso, como um complemento nosso – que na verdade não somos sozinhos.

É extremamente difícil.

Publicado por PmA em agosto 28, 2004 10:49 PM
Comentários

Pois é caro neuras, é uma aprendizagem contínua.:)*

Afixado por: i em agosto 30, 2004 11:11 AM

Ainda não encontrei mestre.
:P

Afixado por: PmA em agosto 30, 2004 10:22 PM

Estás sempre a tempo!Say the magic word!:)

Afixado por: i em setembro 2, 2004 07:49 PM