agosto 23, 2004

“Do you feel loved?

Do you feel loved?
And it looks like the sun but it feels like rain”,
diz o Paul em ‘Do you feel loved’ (U2, para quem não reconheceu).
Continua com um
“Nobody else here baby no one else here to blame
no one to point the finger… it’s just you and me and the rain”
já noutro trecho, ‘If God will send his Angels’; esta, aliás, até arrepia.

Porque é que se torna tão difícil acreditar em alguma coisa? Quase em qualquer coisa? Não sei. Pretenderia saber? Também me quer parecer que não. O certo é que desiste-se de acreditar. Ou não, eu cá ainda não desisti: todavia, vou desistindo - pouco a pouco. Acreditar deixou de ser fácil – deixa de ser fácil quando deixamos de ver, quando nos impedimos de ver (até mesmo o que quer que seja, por muito simples que seja: basta querer não acreditar).

Mais, em ‘Staring at the sun’
“To the ones staring at the sun
afraid of what you find if you took a look inside”

A praxis implica que vestamos o devido papel de actor social nesta trama por demais manhosa; coisa fácil, esta representação. Mera aparência, e isso é algo que todos sabemos bastante bem apresentar – mesmo que, apartada da consciência, se dê ao nível da interiorização subconsciente. Sabendo ver para além do que é apresentado, do facto imediato, pré-notado e pré-estabelecido resta questionar se isso nos importa; ou se devemos dar importância ao que, desmontado e reconstruído, nos surge como semelhante à verdade.
Quantas são as vezes em que o melhor, mesmo sabendo ver para lá do aparente e do aparentemente evidente, é ignorar o facto ou os factos e deixar correr – deixar tudo correr como se fossemos limitados, em acção e compreensão, a um plano de destino fadado. Todavia, para aceitar esta prerrogativa tinha que primeiro acreditar: e já asseri que não mais é fácil acreditar, acreditar em telas pintadas por mãos divinas ou ente de superioridade, caracterizado pelo que metafísico é. Tornou-se quase impossível acreditar no homem, como fui ensinado, quanto mais acreditar em entidades supremas – e com supremacia! – que não parecem operar melhor que o animal sapiens sapiens.
Contudo, para nos movermos, para projectarmos futuro, temos, como falha primordial, a carência ou necessidade absoluta de acreditar em algo(s). O que se segue, se deixamos em definitivo de acreditar? Talvez o primeiro estádio seja a apatia; o segundo caracterizado pelo amorfismo de carácter e personalidade; quanto ao terceiro desconheço. Na verdade, desconheço em profundidade os três que enunciei: quanto muito terei balanceado por um limbo, sendo em simultâneo com os laivos de assomo aos dois primeiros estádios.
Mas bem ponderado nem tudo é difícil: deixando de acreditar, logo desresponsabilizando-nos das nossas práticas levando-as ao acaso e sem escolha (muito racional, conduz a um interface que faculta um existência do ir indo, despreocupada, simpática e agradável ou, no mínimo, sustentável (todavia, extirpada de âmago).

“You promised me everything you promised me thick and thin
Now you just say oh Romeo yeah you know I used to have a scene with him”,
Nas palavras de Mark Knopfler, enquanto cantarola ‘Romeo and Juliet’ com o backup dos restantes Dire Straits.

Com a idade a resistência à mudança acentua-se, o instituído (constructo) torna-se o nosso único garante social (e pessoal – que somos bem individualistas e utilitaristas) que não desejamos em nada pôr em questão. Então, deixa-se de acreditar; ou finge-se.


Concluo a publicação com um curto excerto de Dire Strites, ‘Private Investigations’:

“And what have you got at the end of the day?
What have you got to take away?
A bottle of whisky and a new set of lies”


Cumprimentos

Publicado por PmA em agosto 23, 2004 06:06 PM
Comentários

Caro neuras,se deixarmos de acreditar, se nos deixarmos ir ao sabor de uma letargia que parece não nos querer abandonar, se não te emocionares com aquilo que vislumbras, ainda te restam dúvidas?

Lembra-te dos ciclos,lembra-te daquilo que pensavas improvável.

Estamos aqui.:)*

Afixado por: i em agosto 24, 2004 10:34 AM

Dúvidas? Dúvidas há sempre muitas, duvidas?
Certezas, isso há pouco! Sim, claro, tenho algumas.

Cumps., cara i

Afixado por: PmA em agosto 28, 2004 02:40 AM