[Tal como não devo exigir o outro do conflito, não devo extinguir-me a mim e à minha «paixão»; e, comigo, extinguir o conflito.]
rendo-me às evidências e confesso, dada a arrogância que – sim, não escondo nem pretendo fazê-lo – me caracteriza, menosprezei as suas palavras; mais ainda a sua essência e profundidade. De facto, obriga-me aqui a apresentar-lhe, sem qualquer pejo, o pedido de desculpas que lhe é devido.
Aquando da sua última resposta, na qual, obviamente, me senti lesado, obriguei-me a prestar maior atenção ao que havia deixado por escrito. A contra-resposta, se assim lhe podermos chamar, à sua primeira provocação foi indubitavelmente débil: não na forma, como o senhor (perdoe-me a prepotência, todavia induzo que seja homem) assere, mas no conteúdo. Gravo, então, aqui e agora, a minha ‘defesa’ nos moldes que eu próprio considero conveniente – de conveniências são feitos estes jogos.
Realmente, ao dedicar alguma atenção aos dois comentários que redigiu, verdadeiramente os dois mais acintosos que neste blogue surgiram, compreendi facilmente não ser um visitante ‘rookie’, passando a expressão que não me agrada particularmente.
Primeiro ponto:
Realmente sugere conhecer com manifesto à vontade alguns temas aflorados – e digo aflorados sem inocência no termo; perceberá de seguida o porquê.
Com a arrogância que igualmente o caracteriza, o que aliás até mesmo o senhor deve considerar esta afirmação incontestável, abordou algumas temáticas de uma forma que venho evitando neste espaço aqui em questão. Terá percebido enquanto o leu e vai lendo – sei-o pelas suas palavras – que este blog, por opção do autor (eu, claro está), tem tentado fugir à tentação do tecnicismo e sistematização do pendor académico: recorro tão somente a locuções impregnadas de alguma ‘cientificidade’ em ocasiões poucas e de forma fugaz – o que conduz, de modo inevitável, ao segundo ponto.
Segundo ponto:
A escolha foi óbvia e várias vezes a mencionei: o conteúdo deste blogue é generalista. Por razão alguma em particular, apenas porque assim o entendi e porque haverá outros espaços privilegiados onde recorrer a linguagens sérias e ‘cientifico-academicamente’ (aproximadamente mais) correctas; e também dignas. Por decisão minha opto por uma escrita que diz ser arrebicada e confusa: tomo a sua expressão como um elogio, dado que pouco mais que trivialidades quotidianas são aqui abordadas, onde admito ter por várias vezes recorrido a sustentáculos de características vincadamente ‘intelectuais’, nesse sentido que o próprio senhor dá a entender; todavia, não ultrapassam o objectivo traçado para o neurose: sustentáculos que por si justificam algumas publicações pretéritas (pretensão que mantenho para o futuro), sem que, no entanto, pudessem substituir as mesmas – a bengala que o cego transporta como instrumento, instrumento de ajuda, ajuda essa apontada a mim mesmo quando desconheço forma de me legitimar ou, simplesmente, como característica que reitera o que escrevo (e sou).
Terceiro ponto:
Passo a citar, para posteriormente dar seguimento aos comentários que vejo como necessários: «“A Grande Ruptura, diz Fukuyama” ou “A Grande Ruptura, digo eu [...]” era, apesar de tudo, do ponto de intelectual e sobretudo menos pedante [...] embuste do filósofo amador doméstico [...] tão diferente no verbo e nos modos.»
Gosto particularmente deste sarcasmo específico: «Ass. (....) diz Fukuyama. [aqui, aparentemente, recorre, meu caro, ao mesmo embuste que assevera como – continuada – prática minha; é pena.]»
Cito Fukuyama, para quem conhece – como me parece o seu caso –, tomando apenas a parte, ainda que estanque, de um conceito que toma forma na expressão ‘Grande Ruptura’; com a minha modéstia, sim, também a tenho, digo-lhe que jamais insinuei ir mais além, sendo que ademais as obras do senhor Francis Fukuyama, gostemos ou não, são fecundas em ideias (e conceitos), por mais emprestadas que sejam (e emprestadas, neste contexto, inclui o significado de adulteradas e tratada a seu – do autor – bel propósito). Pedante não, caro amigo, já que não exploro constructos doutrem para demonstrar icterícias doutas que me demarquem, nas suas palavras, do vulgo entre o universo de indivíduos socialmente, ou da(s) sociedade(s), constituintes. Que me demarco de uns, meu caro, não duvido; que tantos outros se demarcam de mim, também não duvido. Arrogância sim, porém com peso e medida.
Todavia, dois pormenores endosso à sua consciência: o primeiro; cai no mesmo embuste querendo fazer uso de uma retórica tão simples quanto a minha nos moldes como termina o seu primeiro comentário; algo previsível, até... felizmente, não corresponde à restante estrutura que se assoma como bem mais original; o segundo é que permanece em grande vantagem em relação à minha pessoa, utilizando um espaço público para acicatar o autor sem que este possa retorquir-lhe senão no mesmo, agravando-se uma ausência de identidade, ainda que fictícia fosse, demonstrando que é tão mais fácil permanecermos, como direi, na protecção de um véu de ignorância (outro conceito ‘roubado’, desta feita, a Rawls).
Quarto ponto:
Passo ao seu segundo comentário, reiterando que não deverá nunca esquecer o âmbito deste blogue – que defini o suficiente para a sua compreensão: tenho-o, a este nível, em boa conta (embora tenha a convicção de que se terá, pelas minhas palavras, iludido do contrário ou, pelo menos, como pessoa de carácter duvidoso: pois é, as palavras iludem e como eu nada digo, sic sua, fica aqui explícito que em considerável medida cativou a minha empatia).
De facto algo há que custa a entrar no universo da minha compreensão: este seu segundo comentário, bem escrito porque também é apologista do verbo cuidado, assume uma aparência (e espero que nada mais – ou até poderei estar mesmo enganado) de ataque pessoal, em que não cuida em responder senão num mero apossar de bagagem de armas em que analisa heuristicamente a contra-resposta que o antecede, ao seu comentário, análise heurística aplicada ao pretérito e até mesmo ao presente, sem se esquecer de ‘saudar’ o futuro.
Bom, como diz um caro amigo, que tenho em alguma estima, um blog – por definição própria deste outro senhor – trata apenas, na sua essência, de uma egotrip. Pois bem, não corroboro em totalidade esta definição, mas aplica-se ipsis verbis a blogues que como o meu têm esta estrutura. Toda a escrita induz o leitor em busca de uma ideia, quer seja a do próprio texto, quer seja a que conduz àquela que ele, leitor, se apropria – de forma pessoal e subjectiva. Não é objectivo do neurose percorrer os caminhos do positivismo, algumas publicações são (ainda) mais pessoais e o conteúdo pretendo-o latente e submerso: ilações ficam para o leitor, ignorante ou não como insinua (falta-lhe, também a si, alguma modéstia: porque, é óbvio, não se imiscui nesse compartimento dos ignorantes, verdade?); a verdade, essa, por maioria de razão resguardo-a para mim com a legitimidade que tenho: a minha. De facto, não tratando de forma séria coisas sérias, este blogue é uma egotrip absoluta, onde, no seguimento da trip, me dou ao direito de misturar temas, conceitos e o que quiser que me são caros. Porém, sempre em trip, pois também as trips falam por si – muitas vezes com significados subentendidos que extrapolam o âmbito neurose (fóbica): mas, assumo, faço-o com esse propósito e com plena consciência.
Quinto ponto:
Em relação ao conceito de ‘Ordem’ – conceito que aplica com conotação marcadamente histórica.
As contingentes relações que mantenho com o meu blogue assentam numa cisão principal, a qual definiu através de uma pitoresca linguagem paternal como, cito, “’road to serfdom’ para si próprio”. É gratificante, quanto ao que me toca, perceber que me encontro em situação de servilismo para comigo próprio; antes para mim do que vendido (ou servindo, com a especial enfermidade pejorativa deste termo) a outros – não insinuo que o faça, apenas corroboro a tese de que também me mantenho abstraído duma ‘made order’ pré-existente em qualquer sociedade humana moderna: ou, pelo menos, não coloco ênfase no facto de ser ou não rotulado, em dito popular, como carneiro entre tantos. ‘Grown order’, como afirma, é um palavrão, ou melhor, uma expressão, de quem tacitamente se enquadra na ‘made order’ estrutural, variando unicamente ao nível da ancoragem paradigmática, clivagens (sempre) existentes no(s) Sistema(s) – ou ‘made order’?
Deduzo que tenha sintetizado que nada desmascara – ou pouco – porque nada – ou pouco – há, no caso específico deste espaço digital/ virtual, a desmascarar; deduzo que tenha sintetizado, com a sua particular idiossincrasia, que sou de facto demasiado claro: mas sem exposição em demasia da minha privacidade que não a desejada ou conduzida. Deduzo que admita que o talento é uma propriedade e não uma característica: há quem o aproveite, quem não o aproveite, quem tenha oportunidade (e sim, mesmo não a merecendo), quem não tenha oportunidade (sim, mesmo merecendo), mas não há quem não o tenha de todo.
Antes de encerrar e de, por hoje, assim espero, enviar os meus habituais cumprimentos, assiro ainda que arrogante sou realmente, arrogante por, nos seus termos, ser apologista acérrimo de um Sistema estruturado numa tecnocrática ‘order’ – devendo muito ao Sr. Galbraith quanto a esta postura.
Aguardo, com o prazer costumeiro e indiscriminadamente, pelo seu comentário ou os de outrem.
Cumprimentos meus.
[Mas posso reconfigurar-me dentro do conflito, pelo conflito, e, nessa minha reconfiguração, que é também reconfiguração do outro, construir infindavelmente – porque é essa a natureza do conflito – a tolerância.
Itálico por José M. Justo, extraído da Introdução à obra ‘Tratado Sobre a Tolerância’, Voltaire, ed. port. Antígona, 1999]