agosto 16, 2004

Um Conto (PARTE I)

A Castro nasceu no seio de uma família conservadora. Fora a primeira, poll de uma curta série de rebentos. Apesar do pai, severo no trato e conservador nos ideais, porém de uma ternura que envergonharia os mais castos, embora teimasse em não a querer – jamais – dar a conhecer ou exteriorizar, não esconder a preferência por um filho macho, com aquele minúsculo apêndice distintivo do sexo oposto, foi na sua severidade e escassez de palavras um homem babado quando a vira pela primeira vez: esquecera, por completo, a preferência que nunca escondera; se fosse menino não ficaria mais satisfeito. Ao afagá-la, àquele pequeno ser que era a nascida menina Castro, junto a seu peito permitiu-se, apesar da sua conhecida dureza nas palavras, a um imbróglio de conjugações confusas: também ele estava num estado de confusão, iniciado mal vira a Castro nas mãos da parteira que lha viera entregar pela primeira vez. Pouco dado a emoções que pelos outros fossem notadas, sentiu um molhado latejar nos olhos; a voz, embargada, ficaria como recordação para si mesmo – e para a parteira que, de grande sorriso na face, lhe trouxera o primeiro fruto do incontestável amor que, desde o dia que a conhecera, prometera à mãe desta linda e frágil nascitura; essa chama de amor manter-se-ia pelos anos, imaculada por ela própria que por si derrotava qualquer estocada de proveniência exterior; sempre fora lindo e puro, este amor entre aquelas duas almas que agora se viam continuadas, como lei universal da vida, nos ainda acinzentados olhos de tão doce criatura com poucos quilos e parco tamanho: um bebé saudável, como outros tantos, mas infinitamente especial aos olhos de ambos quando, ao colo da mãe com o pai ao lado, a contemplavam com todo o deleite do prazer de terem objectivado um amor na mais terna coisa que o mundo tem.

O segundo, ou melhor, o terceiro filho dos Borgonha veio à primeira luz do dia em território Ultramarino. Digo terceiro como poderia dizer o segundo. De facto, o último destes Borgonha não era já esperado e fora, sem dúvida, uma surpresa; agradável, nunca os seus progenitores de tal duvidaram, mas sem que por isso deixasse de ser uma surpresa. Terceiro, dizia, porque o segundo abortara espontaneamente ainda num período demasiado embriónico; segundo, sustentava, porque de facto o outro segundo nem perto esteve de sair do ventre da mãe. Em idade distava, portanto, bastante do primeiro nado dos novamente orgulhosos papás. Por virtude de acasos da natureza que me coibirei de enunciar, sempre foi desde que estivera nas mãos de seu pai o seu menino de eleição; não que a mãe o rejeitasse, claro que não: mãe é sempre mãe e há quem sustente que os laços destas com os filhos, dado o facto de deterem o monopólio de nelas se ocorrer a totalidade da gestação, serão para sempre fisicamente mais vincados; sobre esta expressão não irei expressar, de igual forma, qualquer juízo, pois que me interessa a história em si e em nada o que a extrapole – decisão que tomei antes mesmo de me ter decidido a dar forma ao que por aqui discorrerei.
Indubitável realidade, este Borgonha irá ser sempre hiper-protegido sob as asas de um incomensurável amor, a par de uma extrema dedicação, do Borgonha pai – que, contra tudo e contra todos, sempre apostara sem vacilar na vontade de vida (inabalável, diga-se) do seu progenituro.
Fora o seu irmão, orgulhoso do pequeno ser que agora partilhava a mesma casa, quem o baptizou, escolhendo com o anuimento dos pais o nome próprio – ou os dois nomes próprios – pelo qual viria a ser chamado este pequeno. Porém, de negrume é feito o futuro pois que ninguém o desvenda antes que se torne presente e, logo sem piedade e de imediato, passado; o irmão Borgonha mais velho, e menos ainda o mais novo, não desconfiava das amarguras que entre eles, que durante anos seriam muito amigos, companheiros fervorosos e confidentes de inconfidências, se viriam a intrometer separando sem remédio nem cura as suas vidas; culpas e responsabilidades: só a ambos, a estes irmãos, as podemos atribuir – o esquecimento é fácil quando compenetramos a mente efusivamente nos ressentimentos do presente e do passado próximo.


Castro, primogénita, viu outros seguirem a linhagem dos seus pais. Não se podia dizer banhada em afectos enquanto da sua vivência como filha única, todavia nada tinha a apontar à atenção que lhe era prestada e à educação que lhe fora destinada, aplicada. Um após outros, recebeu sempre de braços e sorriso aberto os varões que nasciam; até que, decididos os senhores Castro, decidiram que, pela contagem, em filhos, e filha, já bastava; como é dito à boca cheia e em moldes grosseiros, optaram definitivamente por encerrar a fábrica, a fábrica da maternidade; não se conhece que, falando no mesmo tom, que a fábrica da paternidade continuasse em actividade, pulando a cerca do contrato matrimonial: católico, como convinha. Ser a mais velha não lhe trouxe, contudo, quaisquer fardos adicionais, já que a sua mãe era peremptória quanto à educação dos restantes filhos, recusando-se a deixar a educação à mão de outros: fossem amas ou filhos mais velhos. Sempre assumira em absoluto o papel de mãe, convicta de que ninguém faria melhor que ela e que se tratava de função privilegiada que nunca permitiria, dizia ao esposo, ser delegada a mais alguém; de resto, nada existe a apontar ao relacionamento conjugal do casal Castro, com a excepções características a todos os outros, sem gravidade digna de ocorrência (talvez uma ou outra, mas esquecidas nas memórias do eterno tempo que tudo e de tudo vê).

Os Borgonha, pese o nome pomposo que recorda a primeira dinastia da pátria nossa, eram pessoas simples. Simples, não simplistas: haver poderia quem distorcesse a terminologia – há que respeitar o rigor. Do casal a sra. era quem mais importância exultava às questões da igreja; ele, o sr. Borgonha, nem por isso: todavia, nada impeditivo de um matrimónio com os rigores clericais, o que, aliás, por exigência da própria sra., se tornou condição incontornável; para ele não lhe fazia espécie, coisa tão habitual na época, e nem sequer teria ponderado algo que desta ideia se apartasse. O último destes Borgonha cresceu rodeado por adultos no lar; o próprio irmão, que o apadrinhara em nome, era já o protótipo de um pequeno adulto; impossível era lembrar-se do mano com idade inferior a onze, doze anos – e já no Continente: o Ultramar deixara de depender da pátria, assumindo a sua independência, bem ou mal, face ao mundo inteiro; assumindo e não só, já que se tornara legítima a sua independência aos olhos dos políticos da pátria ex-potência e, acima de tudo, instituída independência nas Nações Unidas onde detinham assento próprio.

Publicado por PmA em agosto 16, 2004 05:38 PM
Comentários

:)

Afixado por: i em agosto 16, 2004 06:24 PM