agosto 02, 2004

Maturações ou Ser não se baliza por um existir redutor

I’m nearly great
but there’s something I’m missing I left in the duty free

(‘Staring at the Sun’, U2)


Se não foi no duty free terá sido noutro sítio qualquer.

A longevidade é mais um acervo desprovido de significado. Longevidade de quê e de quem? Em quantidade ou qualidade? Mania das grandezas, de totais edificantes, que putrefazem as necessidades – básicas/ essenciais/ estruturantes, ignomínias/ supérfluas/ apendiculadas. Razões sem razão de ser.

Evita-se cuspir para o ar bem para como para o prato onde se come. Deriva, em efeito perverso, que por vezes – e não tão escassas quanto isso – se ignora o quanto se está cristalizado na realidade: mesmo sendo aquela que dizemos ter construído (mais correcto, ter ajudado a construir ou contribuído na/ para sua construção). Segundo o parecer jurídico deixamos de poder ser alugados para passarmos a ser susceptíveis de arrendamento: nesta transmutação que agora nos define como bens imóveis. Cristalizados, enraizados, caucionando o futuro – breve frame a frame com retoques de embelezamento, porém sempre igual e... claro é!, estático: este futuro
Subverte-se a estrutura do sistema: há sempre o papel social (em sentido ancoradamente sociológico), dizem. Desaprovando (pré)juízos estabelecidos, resta-nos, então, este último encore que nos extirpa do trilho e do trilhado: escolher, com limitações – mas, todavia, escolher. Volte face interessante este que nem a todos interessa (nem virá, sequer a posteriori, a interessar). Se o papel me permite esgueirar à estrutura... pois bem, serei o que futuramente desempenharei; e sem tempos (muito menos paciências) para arrependimentos.

O ser humano é invertebrado na sua postura quanto à adaptabilidade, disso me convenci e não pretendo que me invertam as voltas (nem a própria vontade, minha, sustentaria tal inversão/ perversão). Afinal, a que me referia eu quando encetei a presente publicação? “I’m nearly great”: era – e é! – mesmo isso... com a companhia do(s) sempre presente(s) e aborrecido(s) «mas». “You oughta know”, trauteia a canadiana Morrissette, Alanis, em música com a mesma nomenclatura. Tendo de saber sem que palavra seja dita ou redigida – extremamente difícil, esta tipologia de acontecimentos: contudo, nem por isso impossíveis. Sustenho-me, com diligente empenho, ao papel antecipadamente previsto: sustenho-me a ele já que assim encontrarei o trajecto para a acção, acção que possibilita o imprevisto, o acaso, a mudança; enfim, o escape, recto directo, à cristalização desvirtualizante do ser e do existir. Acção, acção que agindo transporta o definido para o campo das definições em aberto, do acaso, com a possibilidade de decidir e escolher por trilhos, por ramificações e entroncamentos, em bifurcações de soluções e hipóteses. Com consciência e em consciência – não há cá (lugares em cabimento para) “it is your destiny, Luke” de um Vader em Guerra (na e) das Estrelas.

Embarca-se no papel do (e no) real, escapulindo ao estádio estagnado de uma estrutura (im)posta hiper-real – como se de real se assumisse, jamais o sendo: engodos montados, é como se deve encarar e desmontar o esquema mental que produz estas hiper-realidades cristalizadas.
Enfim, fico-me por aqui: terei percebido que não será fácil descodificar estas linhas (correm, agora, os académicos – os doutores – a asseverar que o fariam, mesmo que lendo com apenas um olho de atenção). Eu próprio inicio um processo de séria desconfiança apontada ao que escrevo e ao que presumivelmente pretendo transmitir. É mesmo do meu agrado ser desta forma: subjectivo – a compreensão, ou o compreensivo (à la Weber), tratará de lhe prover sentido. Já o (doutor) Augusto Santos Silva escrevia “Entre a Razão e o Sentido”; opto, clara e inequivocamente, porém abstraindo-me de dogmas que apenas servem para toldar, pelo sentido.

Cumprimentos meus, (mais que) pacientes leitores. Também eu tomei conta de que ‘fugi’ significativamente ao âmbito pré-estabelecido do post (não será isto mesmo o que corrobora a mensagem que vim tentando fazer passar, o de perverter o estaticismo? abstenho-me de consagrar resposta já que é, parece-me convictamente, desnecessária). Paciência.
;)

“It was a beautiful day”
‘Beautiful Day’, U2 (O condão destes «tipos» lá vai sendo, em moldes de hábito, inspirador para mais uma ou duas palavritas neste blog.)

Publicado por PmA em agosto 2, 2004 10:12 AM
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