julho 22, 2004

O mito do final feliz

Que mais senão mesmo um mito? Dizem os antropólogos (e etnólogos, etc.) que o mito sobrevive, ou melhor, é-o através da sua repetição: o rito; o ritual de promessas sentidas e verdadeiras entre dois seres embora, ensina a história, caiam inevitavelmente em saco roto – o do esquecimento, da rotina, do hábito, da substituição por outrem: micro-rol de causas que consumam o esquecimento das promessas (feitas em sinceridade, na altura: contudo, os tempos mudam... e com os tempos as pessoas... e com as pessoas...).

O assolo da felicidade é extemporâneo, por muito que o neguemos, que insistamos para connosco que desta é que é: para sempre. Freddy Mercury, ele próprio, cantava “who wants to live forever? (...) our love must die”.
O vini, vidi, vici existe, jamais aplicaria sentença em contrário: mas existe, sim, num espaço e tempo (de)limitado, muito próprio – infinito, enquanto (per)dura (aquilo que me ensinaste, SS, pena que o tenha compreendido demasiado tarde – ficará, todavia, como lição para o futuro: pequeno consolo que te ofereço).

O que começa por ser um estado de emoção agrava-se: não o queria ter feito, mas estaria a enganar-nos se não to dissesse (mais cedo ou mais tarde confrontar-nos-íamos com a realidade que relega para o nada o mais belo sonho). Ouvi-te, do outro lado da linha, a chorar. Pesou-se-me a alma: era o resultado das minhas palavras, ainda que ditas em tom suave e meigo. Por ora o sonho continua a ser vivido, sê-lo-á, a nosso gosto, por tempo indeterminado – mas subjugado ao fim que sabemos aproximar-se: qual de nós não se dá conta desse inominável facto? Sem reservas penso: “paciência”. Ensinaste-me a calma com que devemos comportar o tempo; alia-se a lição do eterno vivido num espaço balizado, com as suas (rígidas) fronteiras. Paciência, há muito para ser vivido até que o término coloque o seu ponto final (sem parágrafo, sem posfácio, sem nada: o ponto final, finalíssimo, em si). Existem tantas estações, comboios mais ainda; mas empreendeste num comboio de viagem só de ida: o retorno, esse, é agora uma não opção – impensável (também a mim, emocionado, me apeteceu chorar; como sempre nestas circunstâncias, nem isso consegui – sensível? sei lá; se calhar não, não mesmo).

Universos paralelos sem paralelo... penso que é isso mesmo, é assim que posso caracterizar, por aproximação, aquilo que carece de passado mas que é rico em presente(s) – intenso? “Don’t worry, be happy”, cantarolava Bob McFerry. É aquilo que pretendo, não me rendo nem vacilo perante ilusões: mas não admito que me (re)tirem o sonho, não agora que é cedo demais.

Confidenciei-te o que todos sabem, que aquilo que não é bom tem sempre um fim; não podia ficar sem completar a frase que iniciara: pois é, também o que é bom nasce, como o ser humano nascituro, com os pés virados para a cova – enfim, de igual forma o que é bom não dura para sempre: só nas nossas memórias, que vamos avivando conforme o apetite, vive eternamente, numa eternidade circunscrita à condição da existência.
O ser feliz para sempre redunda, quanto muito, numa situação pacifista em que o conformismo é a regra: estamos... estamos pelos apêndices que brotam lindos, pelo hábito, porque os outros têm já parte de nós numa apropriação algo indecente; estamos porque é confortável, estamos... porque estamos? quantas vezes não conhecemos resposta a uma questiúncula tão simples... E quem se pode atrever – arrogar! – à censura? Eu não, com toda a certeza. Sei que o feliz para sempre não existe – limito-me a buscar um qualquer sucedâneo que, razoavelmente, me satisfaça ou vá satisfazendo.

Abraçando a geriatria (do pensar), faço uma analogia entre o significado desta publicação com aquilo que julgo ser bem demonstrativo: na voz de Bono ouve-se emotivamente, com a bateria de Larry Mullen Jr. em cenário de fundo, “This song is not a rebel song; this song is sunday, bloody sunday”.

Cumprimentos.

Publicado por PmA em julho 22, 2004 08:55 PM
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