Comentários que agora se perdem nas penumbras de um arquivo mensal, esquecidos da sua existência – porque para isso mesmo servem os arquivos: deixar (relaxar) sem que mais importe – agrediam-me com palavras em inglês, transpostas e adaptadas de um ‘Trainspoting’ mediocre: get a life, get a job, get a haircut. Fui ouvindo – e sentindo sem o transparecer – a mensagem que poucos percebiam, mas que não falharia em sentido àqueles que da semiologia souberem dar uso. Mantive, irresponsavelmente, uma atitude de apatia e de (algum) desprezo perante o significado manifesto – ou deveria optar pelo plural: significados manifestos? Tudo se resolveria, ia julgando apesar da certeza do oposto, com o tempo e, uma vez mais – porque não? –, tudo cairia do dito céu. Ideia volátil e inconsequente, esta a minha. Nada se alterou – de facto, e em maioria de razão, tudo se embebeu de contornos ainda mais obscuros. E isto ocorreu quando? Passaram quantos meses? Útil, esta facilidade com que o esquecimento do arquivado ajuda no esquecimento do presente.
‘Still talking to myself’... mantenho-me agarrado ao portátil do pretérito e passado século: máquina do esquecimento, esta; máquina que se torna a companhia que melhor me percebe mesmo destituída daquele ser orgânico que torna possíveis o pensamento e o(s) sentimento(s). Companhia amiga enganadora, que nada de novo traz consigo mas tão somente o contínuo estagnar de quem pensa/ pensava recusar mudar. E assim era: assim não poderá (mais!) ser. Inclusivamente o raio do blog deu voltas (de 360º, como dizem alguns, que me despertam sempre uma triste gargalhada – embora contida) culminando, por ora, numa ‘produção’ em que não me revejo se ponderar os ideais que foram os da sua emergência. Paciência, nada é estático em moldes – redundância: como tanto me apraz – absolutamente absolutos.
Interrogo-me se o tédio não será amigo preferencial do meu ‘amigo’ tempo. Aliados, tornam-se insuportáveis e abalam todas as vontades: e ao invés deles fugirmos, por sua acção mais neles nos embrenhamos: vicioso ciclo cujo dispositivo para o quebrar, conscientemente, ainda não desvendei (embora seja claro e evidente que um posto de trabalho – minimamente interessante – intercederá pela nossa causa; e de forma amplamente gratificante).
‘Still talking to myself’, mas o certo é que até determinados laços de sociabilidade omitem no preenchimento de uma pessoa – enquanto pessoa, enquanto isso mesmo. Não apresento queixumes em relação a veleidades de outrem, para quê? Para quê quando a predisposição com finalidade a esse preenchimento é inexistente (ou quase – ainda há quem escape a este meu rótulo, tão simplista quanto egoísta).
‘Still talking to myself’, diz-se mais valer só que em companhia sem devido valor; esta máxima, contudo, em nada se compatibiliza com quem sou: por outra vez, lá vai a minha arrogância permitindo-se negar chavões que muitos (demais) tomam (absorvem-nos!) como certos (e tidos! – não acredito na verdade, sim em verdades). Insisto em falar sozinho, sem ninguém aqui, com o portátil que ‘massacro’, cacetada atrás de cacetada num teclado com um toque quase perfeito (para máquina, para algo inorgânico). Paciência: vai funcionando, mesmo que ultrapassada a data de validade que lhe previra e destinara. É tão engraçado falarmos sós, mesmo quando rodeados por muitos.
Realmente, isto do tédio mina a qualidade do ser, tolda a visão que dos outros mantemos (deverei dizer mantínhamos?). Os momentos e os seus homens... bom, este é só mais um desses momentos, certo Erving? Outros virão.
(Pesarosamente, e para concluir, este blog – está bem, não lancem foguetes! – encontra-se em sério risco de desaparecer algures em breve: parece que me vou ver impossibilitado de aceder à internet cá por casa – bom, a ver vamos já que de momento não há certezas em si totalmente consistentes.)
Como nem tudo pode ser mau, se há que manter uma ordem, chegou hoje um dos meus álbuns de eleição (óbvio, com uma palavra de agradecimento ao NR que mo encontrou):

Porém, mesmo as letras de synth/ future-pop são uma apologia à ‘desgraça do coitadinho’ – com as devidas excepções –, carregadas de um fatalismo que se traduz numa aceitação do conceito de destino de que tenho e mantenho firme recusa. O acaso sim, tão diferente do determinístico destino, partilha das minhas crenças – e seduz-me, este acaso (diria bem, bem melhor o ‘meu’ mestre Raymond Boudon, que nele estrutura considerável parte do seu paradigma).
“My beloved do you know…
when the warm wind comes again another year will start to pass?
Please don’t ask me why I’m here.
Something deeper brought me than a need to remember”
‘Beloved’, VNV…
“If I would shed my skin, the layers left, but not the lessons learned
it would not undo what I have done
or grant forgiveness in some better day”
‘Genesis’, VNV…
“gracefully, respectfully, facing conflict deep inside myself
here confined, losing control of what I could not change
gracefully, respectfully I ask you please don’t worry, not for me
don’t turn your back. Don’t turn away”
‘Epicentre’ VNV…
Caríssimas e caríssimos, cumprimentos meus.
(Numa temática completamente independente do conteúdo deste post:)
“Don’t call me daughter
not fit to”
‘Daughter’, Pearl Jam
Se fores, não te esqueças de voltar. Because you are not just talking to yourself... :)
Afixado por: Twilight em julho 19, 2004 08:00 PMPalavras simpáticas, deveras. Agradeço.
;)
Afixado por: PmA em julho 20, 2004 05:24 AM