A viagem de regresso a bordo de um Airbus da British Airways passei-a de nariz colado à janela. As únicas sensações decentes neste meio de transporte restringem-se à descolagem e à aterragem, onde os corpos são violentamente pressionados contra os assentos numa vertigem agradavelmente alucinante; de resto, soçobra a entediante paijagística por sobre as nuvens (também alguns solavancos que enjoam, estejam as condições atmosféricas desfavoráveis – mas acima de uma dada altitude tudo se perde, a realidade é aquele conjunto de pessoas por ali sentadas e algumas hospedeiras que mais se passeiam do que trabalham).
Heathrow tinha um sabor amargo, desde o primeiro momento do check-in. Na mangueira de embarque larguei o último olhar, em terra, para Londres (julgo, na verdade, não ser já Londres o local onde está ‘estacionado’ este aeroporto). O espírito acinzentara-se, imbuindo pela última vez as primeiras impressões que de Londres sustivera. Paciência, Portugal estava a umas horas apenas.
Forçado de encontro ao assento, aquando do último disparo dos reactores para a descolagem, espreitei pelo pequeno quadrado em vidro donde via a quase totalidade da asa esquerda, acompanhado o movimento dos flaps, o alcatrão a uma velocidade vertiginosa – dir-se-ia como o diabo a fugir da cruz –, uns concorde que lestamente desapareceram de vista, e um aeroporto em despedida – soturno como eu.
Enquanto a aeronave não atingia o seu tecto (e velocidade) de cruzeiro, aproveitei para fotografar na memória as derradeiras imagens daquela cidade que me deixara destroçado na pessoa de uma loira quase ruiva. Cá permanecem ainda com uma invulgar nitidez, embora decorridos já alguns, consideráveis, anitos. Ultrapassadas as nuvens, mantive um olhar de quem nada vê pela minúscula janela, onde uma asa abanava assustadoramente, na prática dir-se-ia que estava ávida por abandonar o corpo a que estava intimamente ligada, e as nuvens, visão rara, surgiam por debaixo dos meus pés.
Foi uma viagem cansativa, quer para o físico, quer mesmo mentalmente. Vislumbrei as primeiras imagens de Lisboa absolutamente esgotado. Enquanto permanecera em Londres jamais vira chuva nem o famoso fog londrino; Lisboa espelhava um estado de alma: mal iniciámos a descida para a Portela, descendo abaixo do nível das nuvens, e recebemos os primeiros pingos de uma chuva que caía ditosamente – era noite e tudo estava num negrume de pasmaceira.
Aterrámos, por fim. O aeroporto de Lisboa, em comparação com o anteriormente referido, assemelhava-se a uma miniatura construção em Lego. O meu irmão e a respectiva esposa aguardavam-me. Mangueiras de desembarque? O que é isso? Tecnologia desconhecida por estas paragens, é o que é. O transbordo para o edifício do aeroporto fez-se nuns mini autocarros da ANA; cada um tem o que pode, nem sempre o que quer: vicissitudes de um país (sempre) periférico. Nas chegadas lá estava ele, o JpA, meu irmão. Trocam-se cumprimentos e, com algum embaraço de quem leu qualquer sinal no meu semblante, questionou-me hesitante se a viagem tinha sido cansativa, asseverava que me encontrava com má cara. Retorqui com um não, brincando com um já viste se fosse do Rio de Janeiro ou Wellington, esta foi bem curta; mas o sorriso saiu amarelo e esforçado; tentei emendar com nova graçola, sustentando com um risível convicção que pá, se calhar tinham sido as noitadas – pareceu-me mais convincente e, de facto fui-o: esboçaram um sorriso já descomprometido, o meu mano e cunhada, descomprimindo o ambiente; a um foi porreiro, pá? anuí e perguntei pela Martita, a minha sobrinha mais velha, na época a única, vindo a saber que sim. Tratava-se da minha segunda ida àquela cidade – da primeira, acompanhado pelos meus pais, ainda a miúda não passava de uma aspiração que ia tomando contornos pela forma do desejo de se querer ser pai/ mãe.
Da segunda circular ao aconchego do lar, pelo qual desesperava numa ânsia gigantesca, são uns escassos minutos à velocidade de um carro. Ofereci-me ainda para pagar o parque – chegara, para mais, bem atrasado – ao que de pronto se fez ouvir és maluco.
No banco da retaguarda do dois volumes, muito perto do banquito da Marta, apontava o trabalho dos neurónios ainda para a cidade cinzenta, num turbilhão tal que era incapaz de encadear acontecimentos – penso inclusivamente que não os percebia: limitavam-se a estar numa moldura em que parecia que observava o exterior e não aquilo que só a mim pertence, ie, os volumosos arquivos cujo acesso só é permitido pelo eu próprio.
A chuva brotava dos céus impiedosamente, tendo o JpA que conservar o moderado quanto à velocidade a que nos deslocávamos: como resultado, demorámos mais que o razoável ou mediano para percorrer o dito percurso.
Em casa fui saudado pelo pai e pela mãe. Rapidamente aleguei cansaço, escusando-me às pidescas questões da mamã, e refugiei-me no porto de abrigo que tem servido para todas as tempestades: nada mais que o meu quarto. Despedi-me, desfazendo-me em agradecimentos, daqueles que por mim esperaram e só depois de estar em casa me abandonaram; enviei ainda beijinhos para a Martolas, a minha adorada sobrinha – por ela dou tudo, tudo mesmo: e continuo, orgulhosamente, assim: é como se uma filha ‘emprestada’ seja, aquele amor de rapariga.
Senti batidas na porta que me separa da restante casa. Não estava para conversas: apesar de ter dito entre, foi num ápice que voltei a ficar comigo e comigo apenas: reiterava o cansaço, a premente necessidade de um descanso restabelecedor. Na verdade, queria dedicar-me exclusivamente a escalpelizar a surreal aventura vivida a trezentas mil rotações por minuto. Obrigatoriamente seria tarefa a empreender sozinho, com o devido sossego e atenção que tanto exigia.
Sossegar, acalmar, ordenar a mente: tudo isto demorou o seu tempo e agora sentia-me verdadeiramente cansado; aliás, extenuado. Exigia-me, todavia, voltar a Londres, voltar atrás no tempo – tempo, esse bicho feio com que tantas vezes me embrulho numa luta desesperada, já que perdida a priori.
Aos poucos as memórias tomavam formas – mais que simples contornos, assumiam um pseudo-realismo, ou proximidade com o real, que podia afirmar estar a revivê-las numa segunda experiência. Regressavam as formas das pessoas, a arquitectura de todos os edifícios – históricos ou não – observados, as cores, os cheiros – o seu cheiro, dela, particularmente –, as baixas temperaturas no exterior que contrastavam com o calor – devido ao aquecimento central que a metrópole aufere – que se impunha no interior de cada local onde entrava, parecendo fronteiras delineadas a régua e esquadro; recordava uma azáfama no Harrods quando ela procurava uma qualquer peça de roupa especial que acabara por não encontrar (foram precisas umas três horas e tal para se assegurar de brilhante conclusão), o Thames onde passeámos a bordo de um barquito ranhoso, não melhor que o pior dos nossos cacilheiros, e rimos que nos fartámos; recordava toda a zona que cercava a Tower Bridge com toda a sua aparência medievalesca, recordava sobretudo a Tower Bridge, mais propriamente só a ponte, onde experimentei dos melhores momentos em Londres – e os piores, quando por fim dissemos adeus, para nunca mais – e aquele pequeno estúdio arrendado no limítrofe da cidade; também recordo com alguma piada quando decidiu mostrar-me o Madame Tussaud e o Museum of London após a hora de fecho – relacionava-se com alguns dos respectivos responsáveis – mostrando-me com entusiasmo, e muitos beijos aliados a mãos que se perdiam, os seus ‘bastidores’, o ‘backstage’ da acção, enfim, tudo aquilo a que o turista ou visitante mediano se vê vedado – e sentir um deslumbramento!...
Finalmente, as memórias! Duma limpidez pratica e dolorosamente (‘dores’ circunstanciais, específicas a determinados espaços e tempos) confundível com o presente, com o vivido aqui e agora.
Esforçava-me impiedosamente para recordar tudo ou tudo o que interessava. O resto, o resto podia ser uma pálida sombra – não subsistia em importância, não tinha relevo, substância, ‘sumo’.
Agora que recordo, à distância com o desmoronamento das claras evidências que por tão pouco permaneceram claras e incólumes, custa-me ter que aceitar, pois que da única opção se trata, que a este sucedido não caberá recidiva. Não voltarei a Inglaterra (recuso-me a dizer Reino Unido pois que a Escócia, sem a ver com olhos próprios, adquiriu parte do meu coração), não tenciono fazê-lo, dificilmente alguém alterará esta opção obtida de forma concertada pelas emoções e pela razão.
Custa-me, por isso também, continuar por ora este texto. A conclusão ficará para outro post: caramba, a parte mais difícil!, ainda por cima. Resta mesmo o enredo com a loira, quase ruiva que me despedaçou – e mantém despedaçado? Hmm, nem quero saber...
Termino só a confirmar que a jovem apareceu, como sustentara, naquela hora por ela mesmo ‘confidenciada’ no hotel que jamais perderei da memória até que o desgaste do tempo (ou da doença, quem sabe? E até só mesmo com a morte) se encarregue de, naturalmente ao longo deste processo natural, reformatar o cérebro e o conteúdo por lá, algures, alojado – conduzindo para a demência final, onde os ‘clusters’ deste disco rígido, irrecuperáveis, não permitam qualquer formatação adicional.
(a concluir)
Belíssimo, como nos tens vindo a habituar. Será a sensação de deixar Londres ou a constatação de estar em Lisboa novamente?
Elogios cara i, elogios. Obrigado.
Quanto à questão colocada... bem ainda hoje recuso fazê-la: não me apetece dar-lhe resposta.
Cumprimentos.
Afixado por: PmA em junho 28, 2004 02:27 PM