junho 27, 2004

Às portas de Sesimbra...

... uma noite no bar do peixe Meco.

Um espaço agradável, onde o atendimento não prima pela simpatia, que a determinada hora se transmuta de restaurante para bar dançante. Ponto forte: aberto para a praia, bastante simpática pese embora o frio e humidade que se faziam sentir à medida que nos aproximávamos do mar.

Três festas de aniversário reunidas numa só. Umas cinquenta pessoas, das quais trinta seriam de nacionalidade inglesa: tipos impecáveis, não arranjaram um único problema com excepção aos do aparelho auditivo quando se punham a gritar, com o típico inglês de Inglaterra, em coro: ‘Rooney, Rooney’. Foram os maiores danos que causaram.
Dos três aniversariantes conhecia dois, o jovem que me convidou e a irmã – designer em Londres e principal causa pela invasão dos simpáticos, mesmo quando completamente bêbedos, súbditos de sua majestade.

Começámos a jantar pelas 23h30, completamente cansados de uma viagem de duas horas e meia de Lisboa ao Meco. Vasco da Gama com um acidente, estradas sinuosas, e, não fossemos nós portugueses, um carro que se perdeu. Claro que o grosso dos convidados, bem como a outra aniversariante, já lá estavam. Devemos ter chegado perto das 23h, coisa pouca se soubermos que a marcação estava, com reserva, para as 20h30.

Pelo nome do dito espaço, previa-se que o prato seria peixe: pois, massada de peixe – donde derivou, mais tarde, a brilhante conclusão de um jovem que vive num dos prédios ao lado donde moro: ‘Cinco contos por uma canja!!!’ – ao que foi prontamente respondido ‘mas é de peixe, é de peixe’, não fosse esta conclusão doutra pessoa cá do meu ‘bairro’. Sempre em grande, como de costume... para felicidade de quase todos, as bebidas eram à descrição, tendo a rapaziada de Inglaterra apanhado uma maior barrigada de sangria branca do que daquela espécie de sopa de peixe.

Já a dizer bom dia a sábado, fui dos primeiros a pirar-me para a praia. Comigo ia outro bloguista (ou bloguer, sei lá!), o É alguma maravilha?, e mais um casal amigo. Outros também sentiram despertar esse interesse – mas poucos, felizmente. Por aquela altura era ainda possível contemplar a lua, num amarelo encarniçado, em quarto crescente. Fabulosa, porém mais fabulosa era a visão do seu reflexo numa tira de mar, onde ‘andava’ de um lado para o outro ao sabor da ondulação: era uma tira que, iniciando-se no horizonte, terminava com fronteira feita no areal. Uma luz dum prata tão puro e singelo que até medo metia no meio de tanto escuro: não deixava, contudo, de ser uma contemplação fabulosa; tão fabulosa que fui o mais resistente ao frio e humidade que nos ameaçavam com uma hipotermia – todos, incluindo o casal, voltaram para o (excessivo!) calor do agora bar dançante, onde a esplanada seria o único sítio onde conseguia estar.
Ali na praia, semi-deitado numa espreguiçadeira, com toda a certeza mais solicitada nas hora em que o sol raia, o som das batidas, de uma música que é sempre igual nestes locais, tornava-se inaudível, quanto muito um murmúrio que o chocalhar das ondas na areia abafava. Ia igualmente mais precavido: praia, aldeia do Meco, levar pullover – pullover este que serviu de aconchego à aniversariante, irmã do aniversariante, pelo final da noite, já não dançava e o frio da noite aliado à brisa marítima faziam-na tiritar: “costas”, disse; e envolvia-se na lã azul daquela camisola; o frio para mim foi consolado por um sorriso agradecido e umas palavras simpáticas; também, ela tinha sido impecável durante toda a noite, mesmo quando o meu humor e pensamento teimavam em deixar-se envolver pelo negrume da noite, havendo sempre o seu braço a puxar-me para a animação que decorria a modos que num mundo paralelo ao meu.

Com o decorrer da noite foram aparecendo alguns ‘locais’, ou ‘locals’ – como dizia nos anos de teenager. A impressão foi péssima. Estando os ‘locals’ e os não ‘locals’ num avançado estado de embriaguez – embora não se resumisse tudo ao álcool – observei que um deles, propositadamente, magoara uma rapariga, novinha e alta, que aparentava ser estrangeira (mas connosco não estava), num peito. Atitude esta que conduziu a que o único sentimento que por aqueles tipos nutri se resuma a uma palavra: asco! E assim foi pela restante noite por cada vez que cruzava caminhos com esses senhores. Recuso-me a dedicar-lhes sequer mais uma única palavra, mesmo de carga conotativa altamente pejorativa.

Segui novamente para a praia, recusando simpaticamente os incessantes, e igualmente simpáticos, convites dos dois aniversariantes conhecidos para permanecer no espaço a dançar (ainda por cima ao ritmo daquela música deveras irritante). A lua fora ‘engolida’ pelo horizonte, restando apenas o escuro do céu e do mar, em tons similares, apenas quebrado pelas estrelas que tão bem se observavam, parecendo muitas mais do que quando estou na cidade, e pela ténue luz de um farol lá muito ao fundo. Decidira, por isso, não ir para a espreguiçadeira que se encontrava demasiado longe do mar e ir mais além. Ao ritmo muito de fundo daquela música, ouvia-se com uma superior clarividência os urros ingleses que agora tomavam a palavra do nosso país, num sotaque muito próprio: “Portugal! Portugal” – dizia ouvir-se, à letra, Pórtchugâl.
Ao princípio comecei por me sentar na areia, que por ali se encontrava bem mais endurecida, pouco ou nada se sentido aquele afundar pela areia como quando se encontra bem seca e dispersa em infinitudes de micro dunas. O sossego tornara-se rei e o mar o seu súbdito que o saudava com o espraiar no areal – era o único som, este do mar. Por ali permaneci, com a camisola ainda em minha posse, cobrindo-me as costas e aconchegando aqui e ali o peito com as suas mangas. Na mão tacteava a areia que, uma vez após outras, ia recolhendo – aos poucos deixando-a fugir para que o processo se renovasse.
Das poucas vezes, do tempo que ali permaneci e que valeu os “cinco contos por uma canja”, escassas foram aquelas em que tirei os olhos do espectáculo que tinha pela frente. Algumas para fechar os olhos e dedicar-me a introspecções de carácter muito pessoal. Outras três foram para escrever um nome, com um dedo, na areia molhada que me acercava, para voltar a lê-lo durante mais do que o tempo necessário para o simples ler, e, a derradeira, para, com a palma da mão direita, apagá-lo com um gesto da direita para a esquerda – nada de vestígios, digo eu para mim...

O encerramento ainda demorou. Demorou, aliás, mais do que previra. Deixei-me, então, entregue à mera observação e a umas garrafas de água, com e sem gás, frescas ou naturais – que a brisa do mar fazia-se sentir mais forte –, sem preocupações para com o gesticular eufórico que aguentou toda uma noite. Quando as luzes se reacendem, em sinal de um ‘está na hora, pá’, a resistência ao chamamento do ‘para casa’ foi bastante. Mais um pouco e teriam que empurrar os ‘resistentes’ dali para fora, mesmo literalmente empurrar.

A viagem de regresso foi sem complicações – sem qualquer mácula de álcool, conduzi o veículo que traria de volta aqueles que mais me importavam (de resto, não conhecia quase ninguém; os ingleses, com poucas excepções, naturalmente menos ainda).
O único inglês que nos acompanhava, um tipo simpático mas já rendido aos efeitos da bebida, adormeceu não tinha eu ainda dado meia volta ao carro para o encaminhar no sentido da estrada (ou assim lhe chamam, a um estreito tapete de alcatrão com aspecto altamente duvidoso).
A aniversariante ao meu lado, o aniversariante por detrás do banco da condução: os dois manos persistiram em manter-se acordados, ambos envoltos numa discussão saudável que ia desanuviando com algumas ‘bocas’ tontas. Preferi a 25 de Abril: bem mais perto, pensava; e também porque desejava estar nas alturas quando fosse recebido pela Lisboa velha que dali se vê e que é sempre bonita (talvez dispensasse a vista do cemitério de S. João, todavia até estes são necessários pelo que fazem igualmente parte integrante da beleza urbana – de que nem todos gostam ou sequer apreciam).

Deixei-a e ao respectivo moço à porta de casa, do prédio – claro! Desfez-se em mil e trezentos obrigados aos quais devolvia, sem sucesso, a mesma resposta em que afirmava ser aquela cerimónia desnecessária. Ao aniversariante obriguei-o a vir comigo estacionar o carro – mais não fosse, tinha sido o automóvel alugado pela irmã, sendo de toda a conveniência alguém saber onde estava o carro (não fossem perguntá-lo pela manhã!). Outros mil e tantos obrigados com uns ‘impecáveis’ pelo meio e seguimos cada um o seu destino final. Acendo a luz do quarto: seis e dez. Cama? Não. O vício de sempre: ligar o desktop, ver o mail, vir ao blog, ligar o msn (porquê não sei...), passear – ignorando o cansaço – pela Web, ouvir uma música decente (de todas ouvira duas: one step beyond dos Madness e elevation de U2), fumar um cigarro à janela – que detesto impregnar o quarto com cheiro a tabaco –, e aí sim, depois do ritual, talvez ir dormir.
Sete e trinta, absolutamente de dia, um grande calor que já se ia impondo, e lá me deitei. Antes tive que me dedicar, como sempre, a falar sozinho sem fazer barulho; e isto e aquilo e aqueloutro... até, após mais dois cigarros fumados, o pescoço se render a um final de dia – cheio –, obrigando a tola a ir, pouco e pouco, tombando. Sete e trinta e digo-me as últimas palavras seguidas do click do candeeiro: boa-noite – bocejando.


Rigorosamente sem qualquer ligação. Será isto?
y = x
ou, complexificando
y = mx + b
Logo saberei, saciando a curiosidade, se é esta (ou estas) a equação que exprime uma recta. Isto agora tornou-se pessoal... ai, esta malta que vem de letras – não ‘pesco’ nadinha disto.


Terminus:

"You've got what I need and every desire that I crave
You are just what I want, the perfect body, the perfect face
I love who you are for every move you make, for every word you say
and for every second that we spend"

'Romancing the Stone', State Of The Union

Publicado por PmA em junho 27, 2004 01:27 AM
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