junho 22, 2004

Devaneios de um puto, já não tão puto

Complicado é de nós falarmos. Então, quando acercamos determinados assuntos assuntamo-nos com a perda do ‘piu’. Na oralidade ou pela redacção temas existem que melindram, exercendo um coacção interna que interrompe, bloqueia, o pleno funcionamento daqueles microbichitos que são os neurónios. É uma confusão fantasmagórica, por lá percorrem milhares de pensamentos a uma velocidade semelhante à da luz. Todavia, qualquer conflito impede a sua exteriorização. E não, não me refiro à acção de psicotrópicos e muito menos da da mescalina (em particular). É algo orgânico, reacção química endógena – que limitados seres nos vamos dando conta que somos. Mesmo assim inventámos o motor a jacto, o combustível sólido, a energia nuclear e tretas de hidrogénio que matam que se fartam. Curioso, em circunstâncias que em tudo aparentam uma superior e indubitável simplicidade bloqueamos, como a criança que não se recorda da tabuado, como o licenciando que esqueceu os princípios básicos de um paradigma, dum mestrando que sofre dum ‘apagão’ quanto aos clássicos da sua ciência.

Em formação profissional estava horas a aborrecer os desgraçados dos formandos, sem que qualquer premissa fosse esquecida, com um à vontade que por si bloqueava os bloqueios, se me permitem a redundância. Quando questionado sobre módulos em que a ignorância era ainda considerável, bastava-me remeter a solução para a próxima sessão, fosse ela presencial ou a distância, em plataforma de e-learning, com um tutor capaz. Se não havia solução, arranjava uma. Sempre fui razoável a safar-me: penso mesmo que foi assim que consegui terminar a licenciatura. E com rodeios afasto-me do cerne. É do hábito, perder-me enquanto escrevo. Vamos lá, então.

Acordo de manhã sem despertador e sem necessidade daquela luminosidade que – digo-o com alguma repetição, irritante – inunda o meu quarto, ultrapassando com displicência a cobertura (pseudo)protectora dos estores. Enrosco-me no meu ninho, ao deitar, com um único pensamento; o mesmo que me leva a acordar espontaneamente, decidida e definitivamente antes do tempo previsto – quer faça a última abordagem ao mencionado ninho às duas ou após as quatro da manhã. É algo de perturbante, porém que não me preocupa em absoluto. Normal em espíritos ansiosos. E se o meu se sente e ressente dessa e nessa ansiedade. Estranhamente é inusitadamente agradável e, mais que agradável, mesmo bom e inclusivé apetecível!

É difícil desprendermo-nos duma ideia quando esta açambarca a nossa atenção, consciente mais inconsciente. Chega a ser assustador: parece uma mania em sentido psiquiátrico. O que, será suspeito?, sobrevaloriza o assustador é que gosto, gosto mesmo. Encontro-me numa posição em que vivencio os dias e as horas – quase que os minutos – com uma intensidade impressionante. Gosto da delicadeza, ternura e melaço que tenho vindo a experienciar durante esta aventura – que tanto demora a passar, como também dispara o tempo num ápice; paradoxo ou não é mesmo assim esta coisa bela que comigo tem vindo a viver. Em qualquer esquina desta em Lx, em qualquer hora do dia lá está essa ideia, submergida sabe-se lá vinda de onde; e depois perco-me por e nela até que, subtilmente, se apaguiza, extinguindo-se tal como surgira; mas o seu regresso é incessante: volta, e volta, e volta. E eu, eu adoro isto, adoro pelo que representa. Kundera estava certo do que referia quando, um dia, criou, imortalizada pela obra, a insustentável leveza do ser – talvez esta expressão tenha força, e conteúdo, para sumariar aquilo que tentei expressar em sete ou oito linhas.
Receio pavoroso é este que me assalta: chegar ao momento, à hora H do dia D, e cerrarem-se os lábios, embrulharem-se as cordas vocais, baralhar-se o cérebro numa exorbitância desmedida de ideias que não tomam forma. Não há-de ser nada, o pânico não me assaltará e procurarei copiosamente recordar-me do claro castanho de uns olhos que pacificam esta ‘fúria’, que, numa melodia doce por um manto de fundo meigo, acalma as (precipitadas) emoções.

‘This is USS/ HMS (...) admiral. Full throttle ahead. Best of lucks, soldiers.’
(Como imagino a partida nesse dia algo tempestuoso no mar, pela hora H, dia D. Boas memórias os recordem sempre: não apenas na guerra se fez sentir esta bravura e coragem de milhares.)

Recorrendo a velhos hábitos, despeço-me com o portento, para mim, de significados em que determinadas letras musicais estão imbuídas.

“You’re not alone in this world
Show me your mind
Open your mind”

“Sometimes when I look
deep in your eyes
I swear I can reach your soul”

‘Say Something’ / ‘Sometimes’, James

“Shiness is nice and
shiness can stop you
from doing all the things
in life you’d like to

Coiness is nice and
coiness can stop you
from saying all the things
in life you’d like to”

‘Ask’, The Smiths

“And you leave me holding on
in Red Hill Town
as the lights go down
I’m hanging on
you’re all that’s left to hold on to
I’m holding on
you’re all that’s left to hold on to”

‘Red Hill Mining Town’, U2


PS – Recebo um sms: suspiro (profundamente em alívio) !

Publicado por PmA em junho 22, 2004 07:58 PM
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