junho 21, 2004

Da imaginação

Fomenta-se a ideia que a imaginação é produto e que brota da mente do autor, que a ele se devem as explanações que incorrem pelos mais diversos e distintos caminhos.
Por medíocre que seja este blog, muito ou pouco, venho em defesa da argumentação que o que escrevo não se deve a uma mente que, por vezes, mais parece perturbada que sã – não sendo isso verdade, o facto de ser perturbada. O que será da minha imaginação se não obtiver fonte onde possa ir beber a fim de se inspirar? É o caso, a minha imaginação é secundária, dado o facto de ser a fonte de produção o mais importante a relevar neste processo que é o da escrita. Para ser uma pessoa idónea, franca, vejo-me obrigado a assumir esta realidade.

A sensibilidade pode viver entre nós, mas não ultrapassará o estado latente se não for estimulada (também cultivada, mas lá está: outro, mais um, pormenor secundário – inexistente na inexistência de um estímulo com a devida força, força que seja o motor de arranque para um veículo há muito parado).

Pelo que nos transmitem (deveria dizer bombardeiam?) através da televisão, ao invés do soma, do corpo, a imaginação não ganha asas com aquela coisa energética de sabor pavoroso, aplicação duvidável e efeitos colaterais que nem os seus criadores sabem ao certo enumerar – nem quereriam! A imaginação flui através da realidade doutros que no real existem (insisto sempre no real – contudo não encontro expressão mais adequada, o que talvez se deva à minha formação). A imaginação é uma deturpação do que existe, cuja clivagens podem balancear conforme pretendemos – não existe, não tem consequências (de maior! obviamente que o pensar, mesmo o imaginário – seria mais sério escrever imaginativo, já que o termo imaginário pode tomar corpo de outras interpretações que agora me escuso a explorar – tem consequências).
A imaginação não é filha única, tal Deus encarnado em homem numa imaculada santidade, sendo exactamente o seu oposto. A imaginação surge das vivências com e de outros, das suas alegrias e desesperos, de ilusões e desilusões, de amores e amarguras, de euforias e carpires, de eteceteras e contra-eteceteras. Não me arrogo, portanto, da originalidade de obra criadora, seja mesmo a mais insignificante das obras como têm sido as minhas pequenas ‘criações’, as minhas pequenas ‘criaturas’, os meus ‘nascituros’ de partos mais ou menos fáceis. Só me posso arrogar de os transcrever, nada mais; arrogar-me apenas da transcrição com indelével cunho pessoal – a única causa em forma que me permite e me justifica denominá-las minhas: apropriá-las.

Ridículo seria afirmar que tenho as ninfas do Tagus a sussurrarem-me aos ouvidos, tal como dizia acontecer-lhe Luís Vaz. Tamanha prepotência seria a minha – só um entre tantos, querer permitir-se sequer chegar perto de tão eloquente e enormíssima personagem.
Tão só transmito uma mensagem: não fossem todos os outros com quem vivo, ou de quem vou alguma coisa sabendo, e nada teria a apresentar, a escrever; por mais medíocre que classifiquem esta escrita – mas um orgulho para mim representa: o cunho pessoal que lhe incuto.
Acrescentando-se ao ponto fundamental e basilar da imaginação, não esqueço – como? – as palavras daqueles que me encorajam a continuar: pois nem só o brilhante tem o direito a existir e, mais, a prevalecer.

Ao sublime que é a imaginação.
Aos sublimes, que vão sendo, que sustentam esta imaginação.

Publicado por PmA em junho 21, 2004 05:20 PM
Comentários

Pergunto:não terão sido muitas obras de arte fruto do estado de alma do artista?Voilá,chér neuras!

Afixado por: i em junho 22, 2004 12:22 PM

Nem duvido (pena mesmo é não se tratar do meu caso, isso de ser artista) !

;)

Afixado por: PmA em junho 22, 2004 07:35 PM