junho 21, 2004

Num toque de simplicidade

Simples, conceito que conjectura em si concretos complexos numa aparência enganadora. Mas simples, simples é estar contigo e viver e entregar-me às mundanas sensações do ser, às sensações do espírito ou lá o que isso seja, desligado da corrente de um real que teima em impor-nos correlações entre tudo o que acontece, em que uma acção A implica uma resposta B e logo uma situação C. Não importa, porque simples é ignorar todos os mecanismos explicativos daquilo que se vive. É entregar-me sem receios e na totalidade do que sou só a ti, logrando a quaisquer outros espaços que existam qualquer possibilidade, nas suas múltiplas tentativas, de entre nós virem a ter lugar. Impermeabilizo-me aos factos exteriores, pese embora sejam eles mesmos a causa de juntos estarmos. Simples é de mais nada importar, mais nada ser ou existir que as tuas palavras dóceis, o contorno de uns lábios que vou olhando num pasmo de quem julgava não serem possíveis, do brilho de uns olhos, aqui e ali escondendo-se numa muralha escura de uns óculos de sol, pautados pelo mais claro castanho que o acaso permitiu que conhecesse – feliz acaso, esse.

Simples pois que o complexo é erradicado através da tua simples presença que me faz ver-te como ser singular e simultaneamente o único, faz-me ver-te obrigando-me a em ti concentrar tudo o que sou: simples porque és tu e mais ninguém, mais nada, enquanto te saboreio nos escassos momentos que nos são oferecidos – e nesses momentos és tudo e tudo se torna simples: a isto chamo um toque de simplicidade. Toque porque é finito e ambos sabemos que terá um fim, para de novo recomeçar, mas um fim que volta a expulsar-nos para aquela amálgama da complexidade quotidianamente vivida. Por isso são tão simples esses momentos que contigo, a sós, experiencio uma vez atrás de outra, sempre nova, sempre diferente – porém, sempre simples.

Um toque de simplicidade, esse de sentir a pulsação empolar-se enquanto oiço a tua voz na expressão das tuas palavras. Esse toque que almeja e atinge a simplicidade enquanto as pulsações diminuem de tom na acalmia dos teus olhos, esses do mais claro castanho com que, providencialmente, os meus se cruzaram. Tão profundos e belos, irradiando a beleza de alma, com um quê de tristeza, que tem sido a melhor prenda que me estava reservada. Tão profundos e belos, esses teus olhos, que eu, que sempre com o olhar fujo, que os olhos são o espelho das almas, devido ao embaraço e vergonha que sempre me caracterizaram, não posso deixar de encará-los: quero guardar-lhes a memória, não mais –nunca – esquecê-los. O teu semblante, que algo triste sempre vai resguardando, carregado de alegria, alegria essa sempre confirmada pelo teu sorriso cativante que nem no falar se desvanece.

Contigo quero ir longe neste infinito, mesmo que quem por nós passa nos julgue ali ver; ilusão dos que contigo me julgam ver pois lá não estou: vagueio contigo e por ti nesse infinito maior que o universo que é a imaginação. Contigo, tão só e apenas contigo vagueio por entre as estrelas e planetas, viajo numa empreitada sem fim. Estou só não estando, porque te levo comigo aquela dimensão onde reina a felicidade e alegria. Os outros, esses, de mim apenas vislumbram a aparência – embarcámos para outras paragens, num fundo oceano, no interior de uma gigante ostra só nossa que se cerra para nós dois vivermos aqueles escassos – mas eternos – momentos de eternuridade (obrigado, lgm, por me teres ensinado o que é a eternuridade – agora, mais que a conhecer, experiencio-a, aceitando-a como é, sugando-lhe, por isso, todos os segundos que posso aproveitar).
Tantas palavras, tantos conceitos, tantas explicações: quando eu sei que, no fundo, simples é estar contigo, estando tu comigo.

Tanto amo este toque de simplicidade, não sendo porém mais que um grão de areia da extensa praia que o meu sentimento por ti é. É mesmo assim, simples – contigo.

Publicado por PmA em junho 21, 2004 03:42 PM
Comentários

Happiness is a warm gun (U2)

Afixado por: i em junho 22, 2004 12:33 PM

Bem sabes, i. Bem sabes...

Afixado por: PmA em junho 22, 2004 02:35 PM