junho 19, 2004

Num mar de serenidade

Adoro ver-te adormecer depois de termos feito amor. Deve tratar-se do limiar da ternura.

Sempre adormeci bem mais tarde que tu. Tenho uma resistência superior à tua quanto ao sono – mesmo se for este especial soninho bom. Ias-te entregando, progressivamente e numa acalmia tão delicada, a esse outro universo que é o dos sonhos.

Depois de termos feito amor era sempre eu o primeiro a fraquejar, a sentir que as forças que outrora me percorriam tinham desistido de ser – diz-se ser algo de comum aos homens; que gargalhada, desiste cedo aquele que se denomina como o sexo forte.
Abraçava-te forte, porém cuidadosamente. Contudo, cedo cedia aquele ser animal que em nós vive: largava-te e virava para ti as costas: não me entendas mal, só o fazia porque o corpo esgotado sentia-se incapaz de sequer levantar uma formiga bebé. Fazia-o, também, devido ao forte desejo de, enquanto recuperava do físico, sentir o teu morno e suave peito encostar-se nas minhas costas e uma perna tua a descrever um ângulo por cima de mim. Então vinha o arrepio, chegava sem aviso e impunha-se, provocando-me aqueles formidáveis espasmos que me atravessam até à medula – serenava nesta embriaguez que tomava os meus sentidos em toda a sua amplitude.
Vivia estes momentos, nos quais parecíamos só um, fundidos pelo calor do amor, praticamente com a mesma intensidade que a do próprio acto de amor.
Entregava-me a um dormitar, sem dormir. Em simultâneo com a temperatura do corpo que descia, ia sentindo os músculos novamente capazes de reacção, com a força que se espairara por ti a regressar.
Era a tua vez, também extenuada, de deixar de resistir. Cuidadosamente, porque ias-me julgando a dormir, retiravas-te de cima de mim, ficando costas com costas. Era por aqui que eu teria que tomar a minha vez, retribuir-te o quanto me mimaras – não por obrigação ou sentimento de tal, mas sim porque adorava fazê-lo.
Era eu quem se encostava agora; encostava-me a ti sentido o teu abrasivo calor. Movimentava um braço até encontrar o alto de um peito, a ele alapando-me com a mão. Iniciava então o meu ritual. Com delicadeza – toda que me é permitida – beijava os teus ombros, esfregava neles o rosto, cravava suavemente os dentes, saboreando a tua firmeza e gosto. Soltava suspiros do âmago da alma, enquanto, embevecido, olhava as tuas linhas, os contornos do teu corpo – que teimava em querer conhecer melhor, mesmo com o esforço de ter que perscrutar através de uma penumbra da noite, parcamente iluminada por uma lua que diria sorrir-me ou pelos candeeiros de rua que pareciam em esforço, brotando deles luz mais forte, como querendo fazer a vontade a um espírito que transbordava vida, alegria, felicidade.
Assim adormecia, por meio dos carinhos que me merecias, sem dar conta – julgo quase conseguir discernir aquele sorriso nos meus lábios, já com os olhos cerrados por outra, mais uma, noite.

Fui conhecendo muitas emoções ao longo da vida, vida que conta quase três décadas. Nenhuma existe que se assemelhe, que se aproxime daquela sentida nos braços duma mulher – ela sim, o sexo forte, quem me alimenta os sentidos, proporcionando-me o melhor que há. Bicho lindo, a mulher – como é possível haver anormais que tanto mal lhes infligem?
Bicho lindo, a mulher – quando é essa a sua vontade, encarna-se no ser mais perfeito que vive neste nosso mundo traumatizado com imperfeição atrás de imperfeição, com tanta mágoa, com tanta inveja, com tanto ódio: maus sentimentos que desvanecem perante o amor sincero deste bichinho, bichinho lindo.

Publicado por PmA em junho 19, 2004 02:02 AM
Comentários

Quase sinto o cheiro outrora esquecido...Lindo, tem tudo o que ficaria numa imagem gravada, mais aquilo que só nós sabemos o que foi... obrigada por me fazeres recordar.

Afixado por: Tchuzinha/SS em julho 2, 2004 02:31 PM

Sempre: nunca esquecerei - o seu a seu dono.

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Afixado por: PmA em julho 21, 2004 04:08 AM