Combinámos encontrarmo-nos no Nicola, como sempre gostámos de fazer quando se tratava de, em profunda melancolia e doloroso masoquismo, assomar temas e tempos saudosos – de perder (ou ganhar?) horas a fio na relembrança de algos, era um limbo espacio-temporal, o único, no qual nos permitíamos aflorar os excessos do passado que enterráramos em moldes de perenidade absoluta.
As fachadas dos edifícios outrora subtraídas à vista dos transeuntes, por obras na D. Pedro IV, surgem agora imponentes, desgarrado apelo à grandiosidade e exuberância de um império doutra data. Porém, não eram estas que nos traziam de volta ao lugar de culto, fazendo vezes de um chamamento determinado: era a pequena porta da rua das traseiras que nos conquistara e que acendera com fleuma a chama com que, de igual maneira, nos conquistaríamos reciprocamente sem dar conta.
Aqui, entrando pela dita porta, subjaz a saleta que tratamos como o verdadeiro e inadulterável Nicola. Um estranhamente agradável cheiro a mofo, mesclado com os de um sem número de diversos cafés, açambarca o ambiente e o próprio tempo: é, pois, por esta razão que comecei por denominá-lo por esse quê de fímbria que é o limbo – o exterior cessa no seu sentido, e nada mais releva do que duas faces que trocam palavras baralhadas e embaralhadas ao sabor acentuadamente acre ou mais perfumado, quase que tanto fazia, de um café expresso ou acompanhado com natas.
Quando fizemos a passagem de um centro real para aquela realidade que a nós somente pertencia, fizemo-lo como da primeira vez: as mãos separadas por uma distância formal – e formalizante – com os braços a penderem pelo corpo num vai e vem que teima em resistir ao atrito – embora tu sempre com uma postura notoriamente mais elegante. Conseguimos a mesa onde estivéramos pela altura em que éramos apenas um embrião do que fomos; não era situação de espantar, já a conseguíramos um punhado de vezes antes – como se de um ritual se tratasse, conservar nossa aquela mesa disposta num canto junto à janela.
Discorremos, dado inevitável quando por ali nos perdíamos, sobre o que foi/ fomos, o que é/ somos, o que será/ seremos. A conversa, quase sempre a mesma; contudo, fazíamo-lo sempre com a alegria da descoberta, tal se (a)parecia a nós novidade.
Anos foram sugados pelo tempo, que deles não sente a falta pela insignificância que junto de si representam, e muito mudou desde aí. Já não passeamos a pé – não damos as nossas voltas por aqui e acolá –, encartados e com carro(s) calcorreamos o menos espaço possível pelos nosso meios congénitos, naturais, preferencialmente também gastando um espaço de tempo diminuto, lavajados nas nossas rotinas a que pretensiosamente não desejamos escapulir. A esquálida magia que persistia em existir desvanece-se por entre o fumo dos nossos escapes, ao som de motores agredidos por personagens – nós – que mais somem da vida do que a buscam aproveitar.
Foi há bem pouco tempo, foi há umas horas apenas que eu estalava uma ‘colher’ de canela, por entre os dentes, como sempre o fiz. Foi há pouco tempo mas de pouco vale, surge-me o acontecimento em mente como ocorrido ainda mais para trás daquele quando nos conhecemos – como se tal possível fosse.
Restam-me alguns sonhos, como terminar o mestrado que iniciei e que caminha pelas ruas da amargura, cansado de mim por eu não lhe ligar nenhuma; resta-me, quem sabe, tentar um doutoramento; resta-me a academia. Restam-me algumas amizades – outras, estraçalhadas pela erosão do tempo, não o são mais e muito menos voltarão a ser. Resta-me pensar que tu (quem?) talvez andes por aí num desses nicolas do mundo, aguardando que eu te encontre, aguardando que nos encontremos.
Não espero por resoluções do destino (bicho feio, esse), espero viver e viver e, quem sabe, ter sorte. A sorte também – principalmente? – se constrói, e constrói-se pela acção: pela acção manifesta em desespero de uma inércia (inimiga), inércia fatalmente colhida pela originalidade que o agir ocasiona.
Caríssimos, por hoje chega.
Publicado por PmA em maio 28, 2004 04:06 AMHum...não se vislumbram melhoras no horizonte...quanto à sorte caro neuras,não se constrói:ou se tem ou não!É mesmo uma questão de sorte ou de qualquer coisa do tipo karma.De qualquer modo a nossa passagem por "cá" tem altos e baixos, não é linear (e ainda bem!), tem ciclos,uns que se abrem outros que se encerram.Há que tentar ter maturidade para entrar e sair deles e aproveitar cada uma dessas fases...
cumprimentos e as melhoras:)
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a acutilânia dos teus comentários continua a surpreender-me.
posssivelmente, gostava de te conhecer pessoalmente. Até lá:
*** e os meus cumprimentos, cara inês.
Afixado por: PmA em maio 29, 2004 04:51 AMps - de melhoras, não há nada. todavia, persisto em escrever - o que, por si, já não é mau.
;-)
pps - dentro dos amigos que referi, o NR ocupa e garante um especial lugar em mim - daqui para ti, independentemente de qualquer outra segragação, o meu muito obrigado.
Para o NR especialmente, e para todos - incluindo a inês - em geral, um fortíssimo abraço.
;)
Obrigada e retribuio....:)
A continuação das melhoras, neuras!
Sabes, a motivação vem de dentro de nós, foi uma coisa que aprendi com o passar dos anos...é perfeitamente escusado andar à procura dela fora.è mesmo uma questão de predisposição interior.
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A motivação vem de dentro de nós: correcto. Os estímulos, esses, são-nos exteriores.
Demorei a responder, lamento, mas consegui. ;)
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