Quando se reside numa metrópole como Lisboa (sim, a par com o Porto, já somos considerados uma metrópole segundo os padrões da Comunidade Europeia), e se estivermos no nosso perfeito juízo, passamos a dar uma importância diferente às noites que nos brindam com algo diferente da rotina das multidões aglutinadoras, das irritantes – quase sempre escusadas – buzinadelas dos automóveis, de motas com escape aberto ou ‘mexidas’ (incluem-se os muito em voga carros ‘tunning’), de um zum-zum de vida brutalmente exacerbado... enfim, todas as ‘virtudes’ características do quotidiano metropolitano – semelhante em outras cidades que (felizmente para os seus residentes/ utilizadores) não alcançaram o estatuto de ‘super-cidade’.
Porém, mesmo a noite chega mais tarde por aqui: talvez a partir das 11 horas da noite, mas se quiserem jogar pelo seguro apontem para a primeira hora da madrugada. Ah! E evitem os locais privilegiados pelos mais jovens que muito gostam de aproveitar a noite, viver este dia como se do último se tratasse: compreendo-os bem, já fui e tive atitudes bastante similares.
Fora as excepções referenciadas, Lisboa consegue ser bastante agradável por este período do dia mesmo para quem não busca emoções fortes ou, simplesmente, aventura.
Como na maioria das urbes, um dos pontos fracos é, para quem contempla o azul do céu, o facto da luminosidade produzida artificialmente ‘atenuar’ o brilho das estrelas e planetas reflectores da ‘alma’ desses sóis. Quanto a mim, que conheço razoavelmente algumas zonas mais periféricas – dizer província seria feio, acusar-me-iam de aplicar um termo pejorativo acrescido por uma mentalidade discriminatória –, até simpatizo em maior grau com um espectáculo mais ‘obscuro’: nas localidades tendencialmente ‘vocacionadas’ para o rural o rubor do cintilar das estrelas chega a assustar, apesar da especial grandeza inobservável nos centros urbanos – é como se fosse um valor acrescentado do pacífico, para mim, o estralado do grande azul ser menos ‘agressivo’, menos gigantesco, evitando assim reduzir-me a um ainda maior sentimento de insignificância: sim, olhar para um grande céu desnudado é como sentenciarmo-nos à microscopia da insignificância, a uma molécula do grande – infinito? – astral.
O próprio povo, como dizemos quando queremos justificar per si uma expressão, sustenta que a noite – leia-se travesseiro – é a melhor conselheira. Adoro a noite, pois ela faz-me também sair das preocupações que pelo período diurno me vão atormentando, para mais ou para menos, convidando-me, como que compulsivamente, a perder-me no meu pensar e vaguear pelo seu espaço sem fim. A calma da noite permite-me ponderar sobre os mais diversificados assuntos, temas, algo que nem sempre atingimos com tanta lucidez nas horas que se lhe antecedem.
A noite é bela igualmente pelo mistério de que se faz enredar. Pelas recordações que buscamos e que julgávamos esquecidas para sempre, algures numa gaveta recôndita do nosso cérebro, vislumbramos a beleza com maior beleza.
Mesmo acompanhados por alguns, íntimos, amigos tudo é diferente: bebem-se uns copos sem exageros desnecessários ou pressas descabidas, confidenciam-se estórias, partilham-se sentimentos...
E, para quem fuma, que coisa tão bela e harmonizante é fumar o derradeiro cigarro, aquele que antecede o sono, enquanto se observa, com um olhar perdido, esse grande infinito após ter feito amor com a nossa apaixonada, que agora dorme um sono tranquilo e reparador, com aquela respiração suave que denuncia que é feliz – pelo menos no agora.
Bela é a – ‘mágica’ – noite...
Para terminar, um resto de boa noite e bons sonhos.
Caríssimos, os meus sinceros cumprimentos.
;)
Bela é a noite.Mas o que dizer quando, pela manhã todo o turbilhão de ideias que nos assaltaram durante a noite se acalma e tudo se torna tão claro e até, por incrível que nos pareça, tão simples!
É verdade. Mas depois recomeça tudo de novo:
aqui reside o segredo - e a piada.
cumprimentos, caríssima Inês.
Afixado por: PmA em maio 26, 2004 10:50 PMDe facto é,tens razão...:)É o devir ou a dinâmica inerente a estarmos vivos.
retribuio os cumprimentos:)