maio 18, 2004

Ainda tenho medo do escuro

É invariavelmente com uma ligeira náusea que primo o botão que apaga a derradeira luz que ilumina o meu ‘forte’. Em centésimos de segundos sou como que transportado para outra dimensão, para outra realidade. Como dizia serenamente aquele senhor a preto e branco, “... the Twilight Zone”. Bem, não será assim tão dramático... mas quase.
Não que padeça de alguma fobia que se referencie à noite, ao invés adoro-a – nada de tão confortável num dia que o silêncio da noite, quebrantado pelos habituais ruídos urbanos: mas mesmo estes últimos já fazem parte do rol de encantos deste silêncio a dar para o mágico. A noite tenho-a em estima como as melhores horas das 24 de um dia completo. Mas a noite com alguma luz, fosca, aquela dos candeeiros, das estrelas quando não estão apagadas pelo nubloso céu – e sabemos que num ambiente urbano estas aparecem desfalecidas quando comparadas a um rural mais profundo. Há ainda luzes dos automóveis que rumam num destino sempre igual, como no Feitiço do Tempo, aquelas que persistem dispersas nos blocos de apartamentos e que muitas das vezes só somem com o raiar da nossa estrela-mãe. Noite não é, para mim, sinónimo de escuro, do escuro.
O escuro é o buraco negro do nosso planeta, suga e absorve toda e qualquer luminosidade. Por isso continuo a ter medo do escuro. Não aceita a luz porque ele em si é hegemonia, nada discorre nesse espaço que possa estimular o nosso sentido da visão. É aglutinador, açambarcador, holista, totalizante e totalitário, regime único.

Talvez o único sentimento, desses banais, que equiparo em igual sintonia de desagrado seja o do acordar remeloso numa manhã que desejava adiada; com aquele humor soturno, quem sabe resquício duma mente acabada de sair da escuridão – novamente o escuro, esse reiterado sem ver.

Como se de um imperativo se tratasse, o escuro torna-se irremediavelmente sinónimo de solidão. A modos de um ‘beam me up, Scottie’, somos transportados, transferidos, para outra dimensão. Não fosse o inconfundível som do lugar urbano per si e facilmente aceitaria a ideia que era o único ser – vivo – a existir.

Por tudo isto continuo a ter medo do escuro. Antes, no escuro, sabia que a existência – em vida – não se resumia a mim: podia tocar-te e sentir o teu corpo vivo, podia ouvir-te por mais serena que fosse a tua respiração (aprendi a colocar de lado os ruídos consequência do urbanismo, no sentido que os separava de outros atípicos a si), podia receber pelo olfacto o teu odor terno e morno – por contraste ao áspero quotidiano da cidade de Lisboa: não interpretem de forma fácil o que poderia ser um mal entendido, pois na mais verdadeira verdade amo incondicionalmente esta cidade em tantos aspectos “poluída”.
Por tudo isto continuo a ter medo do escuro. Já não encontro quem negue – quem me negue – que o escuro tem mais do que a solidão que hoje sinto, vivo (hoje o mesmo que ontem; hoje o mesmo que amanhã – parece que o adivinho). Não sei se foi aselhice de quem criou o tempo e o dividiu entre dia e noite: certo, verdade, é que os momentos de inconsciência, delineados pelo sono, se passam no escuro da noite. Quem dividiu o(s) dia(s) neste périplo contínuo ignorou, sem piedade – sem dó –, as insónias que sofremos no escuro que nada – quase – deixa percepcionar; ignorou, ignorância sem precedentes, os sentimentos daqueles que de insónias padecem – teve que ser o homem a inventar o Lendormin.

Por estas e por outras mantenho, tal criatura em tenra idade, uma fobia pelo escuro. Os minutos, certas vezes horas, que me custam até cair no sono aterrorizam-me na medida em que me constrangem a viver num limbo em que a incapacidade de sentir o denominado real me assola – bem haja o ruído da urbe, cordão umbilical que me prende à verdade de que, em facto, não sou único – uno – na escuridão em que só eu sou.
Paradoxal, convenha-se, todavia facto consumado e que consome – a incerteza, aquela dúvida perene, permanece. Por muitas vezes, em todas as circunstâncias, crio o meu escape à realidade – fugir do escuro, onde nem a mim me (re)vejo, montando um universo onde outros existem, sentenciando a morte ao sentimento de solidão (porém, mais não é do que um constructo – estratégia – inverídico que bem sei que não é, não existe).

Súmula
Continuo a ter medo do escuro por receio que se torne a minha realidade nos dias que vêm, nos dias do porvir. Tenho, ainda, medo do escuro pelo receio de nele ficar enredado, inebriado sem retorno – na solidão.
Amo a vida, noite ou dia, mas sabendo que esta se encontra caucionada pela exigência que eu tenho por um sentido – que exijo e não prevejo.


Boa noite, caríssimos. Durmam bem.

Publicado por PmA em maio 18, 2004 12:20 AM
Comentários

Eu confesso que também me sinto muito "desconfortável" quando se apagam as luzes de repente...

Afixado por: inês em maio 20, 2004 03:14 PM

É sempre aquele "terror", é um facto...

Afixado por: PmA em maio 20, 2004 03:44 PM