Os anos passam. Já não somos os mesmos. Já não sou o mesmo. Quando alguém me interpelava com uma questão que em significado seria ‘então, não te arrependes de nada do que fizeste?’, a minha resposta redundava, sem excepções, num não convicto. Argumentava que não tinha nem via motivos para qualquer arrependimento, argumentava que a cada situação dei a resposta que na altura achava não só apropriada mas mesmo a correcta. Todavia, sinto hoje um peso, qualquer disfunção que estou incapacitado de decifrar. Em suma, começo a olhar para trás: porquê agora censurar o passado?
Procuro com urgência memórias do passado, memórias com anos de vida: bloqueio nas brancas que surgem intermitentemente pelo percurso, tornando-se difícil reconstruir uma história com prumo, coesa em si e per si; não sou um homem novo, não existiram cisões estruturais mas a diferença do que fui e do que sou barra-me a resposta aquilo a que tanto desejo responder.
Com a alma que hoje tenho estou obstinado em viajar ao passado – empreitada fútil, inútil, impossível -, com o único objectivo de voltar a viver o vivido. Não só sentir o vivido; vivê-lo, voltar a vivê-lo. Seria uma experiência ímpar: estar a viver com a sapiência que sabe o que os outros pensam, julgam; é como que numa partida que iniciamos em vantagem – viciada, tal como o meu estado de espírito. Mas, santa ignorância!, como poderia alguma vez alterar um número considerável de situações e histórias, mesmo possuindo o condão de ir lá para trás? Bastaria uma alteração, por pouco significativa que fosse, para perder o fio à meada do resto do passado: continuaria a estar enredado numa maré de ondas – coisas – que desconhecia. Para isso vivo o presente. Dá menos trabalho e será até, possivelmente, mais saudável.
Sei isto tudo, mas não empreenderia eu nessa viagem se ma oferecessem? Só confrontado com a situação no real é que poderia responder, se ia ou ficava – algo que ficará para sempre por responder (ainda se tivesse o dom da ubiquidade... são tretas que não existem, balelas da superstição que ainda resta da grande noite das trevas). Mas valeria a pena ir? Se o passado (um pouco mais remoto) não o tivesse sido dessa forma teria outro passado (bem mais recente) existido com todas as coisas magníficas com que me prendou? A(s) resposta(s) não surge(m), a agonia de alguns sentimentos vividos neste tempo presente envolve com toda a sua negritude o meu raciocínio e boa parte da minha capacidade de resposta – é preciso, eu preciso, parar para pensar: como se de uma tempestade de areia se tratasse, pois para vislumbrar não é só deixar que esta termine mas, não menos essencial, que a areia assente.
Não sou idiota de todo, embora possa ter deixado passar essa mensagem. Bem sei porque busco o passado: porque apesar de tudo vejo mais possibilidades neste do que no futuro, futuro através do qual as minhas expectativas e sonhos não conseguem ‘perfurar’.
Até mais, caríssimos.
Nuno, eu tinha ficado de escrever sobre o casamento – lembras-te? Achei que agora não valia a pena; parece-me antes que dei um passo em frente.
SS, passámos por bons momentos, não foi? Brindemos. Ao futuro – futuro que estranhamente começa por tomar algumas parecenças com o tempo: suspeito que não simpatiza muito comigo, ie, desdenha-me.
;)
Vim agradecer o link! Excelente blog! Vou retribuir!
Afixado por: Pintelho em maio 10, 2004 09:22 PMsegundo as sábias palavras de david gerrold: "i have memories - but only a fool stores his past in the future."
... ;) *
Afixado por: srta. carmen ;) em maio 10, 2004 10:36 PMEsse Nuno é um chato do caraças, pá...
Não lhe ligues!
Gracias, Pintelho.
Carmen... hmmmm (tenho as minhas suspeitas). Ó pá, eu não armazeno passado no futuro - ou tento -, se o fizesse ainda não o conhecia (ora aí está uma coisa bem pensada!) ;)
NR - 'bora fazer uma espera à antiga e 'filar' esse Nuno! :P
Afixado por: em maio 11, 2004 12:03 PM(porque raio me esqueço sempre de assinar os comentários?)
Afixado por: PmA em maio 11, 2004 12:05 PMa partir de agora, carmen só há uma, vê se n te esqueces... ;P ehehehhe
*
Afixado por: carmen em maio 12, 2004 01:04 AMFica o registo, garanto.
***, carmen.
(é pá, lembrei-me de assinar a 'neurose'!)
Afixado por: PmA em maio 12, 2004 01:13 AM