Porquê? Porque é que tinha que ser assim? É o destino? Não, em ti não acredito; mesmo que mo consigam provar continuar-te-ei a recusar, a repudiar – porra, o destino é que não.
Vamos mudar o final das estórias. ‘E viveram felizes para sempre’. No ponto social em que nos encontramos temos que mudar o final: e viveram felizes para sempre, enquanto puderam. Paradoxo? Só um paradoxo sintáctico. As belas adormecidas embrenhadas no criogéneo dos seus profundos sonos – e sonhos – não têm lugar, sequer sentido, no meio da lógica mercantil do ‘amor’ que caracteriza a época histórica que vivemos – vamos vivendo.
Assim, já posso também eu dizer, de peito inchado tal garanhão lusitano (refiro-me mesmo ao cavalo, não a uma estereotipia de macho), que já fui feliz para sempre, enquanto tal felicidade me foi permitida.
Lembras-te: que seja eterno, enquanto dure. Também tu, com ostensivos traços de fragilidade e sensibilidade que temos vindo reiteradamente a associar às fêmeas da nossa espécie, também tu pensavas como eu. Melhor, foste tu que me obrigaste a pensar assim desde que... Não se trata de uma derrota que assumimos a priori, pelo contrário, antes a vitória de uma sensação de eternidade num espaço de tempo, inclusivamente, assaz breve. A estrutura mental deste bicho sapiens que somos é extraordinariamente flexível, moldável. Vivemos um presente preciso, um presente que nos inculca o pensar; depois do pensar o agir e, depois ainda, o sentir. Não reclamo por vivê-lo, reclamo sim por vivê-lo da melhor forma que me seja possível: com uma felicidade que devemos apreciar e nunca caucionar em função do futuro.
Não chores mais. Já foi, já não dói nada; aquilo que se pensa ser dor mais não é do que uma alfinetada, um alfinete que se espeta – mas pouco – de maneira a lembrarmo-nos que continuamos vivos, a viver. É uma astucia da vida, que nos recorda que o amanhã existe e com o amanhã uma nova eternidade efémera retornará a nós. Porquê as lágrimas, então? Não chores mais. O amanhã nunca irá chegar – senão porquê ‘amanhã’? – mas não é impeditivo que o busquemos, que o persigamos: é o criar de novos objectivos quando os outros já os temos no bolso, é o criar de novas expectativas, é o voltar a sentir a paixão de um adolescente quando contamos quarenta aniversários. Sem isto alienávamos o sentido da vida, a própria vida.
Afago-te o cabelo (ou será o meu?): shhhh, não chores. Amanhã é que é. Amanhã, esse que nunca chegará mas que traz consigo permanentes e constantes hojes, é que vou encontrar a pessoa da minha vida. E vou voltar a ter a certeza: encontrei a pessoa da minha vida – hei-de julgá-lo assim quando estiver com ela aninhado e enroscado por baixo de uns lençóis quaisquer. Mas isso passa, as certezas desvanecem-se, o mundo volta a desmoronar-se... e lá vamos, de novo, reconstruir a nossa ‘casa’ como se de um caracol se tratasse. Uns, talvez, encontram essa felicidade que existe enquanto dura por mais tempo, outros têm que enveredar por um caminho mais longo – não obrigatoriamente mais doloroso. É como andar num carrossel: a história repete-se com uma exactidão impressionante, andamos aos círculos. E não é bom? Eu, eu gosto de cá andar – bem sei que pago direitos de autor por esta.
Shhhh... já foi – digo de baixinho. Não. Não vamos voltar a cometer o mesmo erro. Vamos, ‘bora perseguir o amanhã. Deixa lá o que foi, deixa os ontens. Sabemos que foi eterno enquanto durou, não arranhemos sem razão o verniz que já estalámos. Está bem?
Shhhh... sabemos como foi, não façamos encore... já conhecemos a história. E esta, como outras (todas), tem fim. Vamos ao amanhã, ao seguimento eterno de hojes. Desta história já conhecemos os meandros, o princípio – o meio – e o fim. Não, não desperdicemos tempo – o teu e não meu, nunca foi amigo de mim –, porquê sofrer pelo que se conhece? É tão mais prático sofrer por aquilo que ainda não conhecemos, é tão mais aventureiro – é tão mais pós-moderno.
Volto a afagar o cabelo – o teu ou o meu? – e olho para o futuro com confiança, lá está ele.
Olho para o futuro, mas a espessa névoa envolta no porvir impede-me de descortinar o que quer que seja, não perscruto nada – nadinha. Mas, shhh... aí vem o menino, o que ainda não nasceu porque não foi nem é, mas traz uma boa nova: não chores mais, reservo-te a vida (mais vida), mais uma eternidade para ti... enquanto durar.
Posfácio – o excelso professor doutor Luís Moita, douto em história e teorias do desenvolvimento, inculcava a uns miúdos – eu era-o de igual maneira – que a história era (é) cíclica. Pois... mas o ciclo do retorno jamais se faz acompanhar da mesma realidade que passou – apenas, e tão só, de uma aproximação mormente fajuta.
PS: aconselho - is it any wonder?
Publicado por PmA em maio 3, 2004 05:56 PMMuito bom!
;)
...
e seria melhor se tivesse um colchão espuma...
não tenho :(