abril 29, 2004

Há muito atrás, numa galáxia perigosamente semelhante...

Dissertar acerca de conteúdos que nos fazem viajar no tempo é uma tarefa árdua e ingrata. A memória atraiçoa-nos com os seus inevitáveis lapsos; mais, à medida que insistimos em dirigir o pensamento para algo de que já não temos em rigor, maior se torna o risco de criarmos aquilo a que psicólogos, psiquiatras e neurologistas denominam por memórias falsas; memórias estas que, a páginas tantas, não conseguimos distinguir – pelo menos de forma óbvia – daquelas fidedignas ao real acontecido, presenciado e, acima de tudo, vivido.

Esta publicação trata apenas de ficção (será? – talvez os mais argutos discordem), porém mesmo a ficção é construída com base na estrutura da ‘verdade’. Esta publicação trata de uma viagem fictícia a tempos que já foram – não são, muito menos voltarão a ser. Apesar da remissão ao passado, o texto será verbalmente apresentado no modo presente. Ao leitor, boa(s) viagem(ns).

É uma longa viagem de comboio, sem paragens em estações ou apeadeiros, sem destino pré-definido – e esta não é a primeira, outras muitas houve, mas será (ainda não o sei) por infortúnio a última. A velocidade a que nos deslocávamos era impressionante. Olho pela janela da carruagem e vejo sempre a mesma paisagem; praticamente sinto o corpo molhado com o vai e vem das ondas do rio; também ele, o rio, nos acompanha nesta viagem. Algumas horas, nenhum destino. Assim tinham decorrido as pretéritas, as já acontecidas viagens neste comboio.

O meu olhar continuava a apreciar uma paisagem imutável à medida que avançávamos, com a vã esperança que seria desta que o tempo, ele próprio, se tornasse imutável (se calhar já o é, todavia não para mim. “Dá tempo ao tempo”, disseram-me um dia quando eu estava ávido pelo acontecimento no presente; “Não – retorqui – , o tempo é teu amigo e não meu.” Assim foi, mas por ora ainda não o sei). O tempo, ao invés da paisagem que corria sempre igual a meus olhos, corria no seu lufa-lufa – porque terá tanta pressa, o tempo, que o tem todo?
Desvio a vista da direita para a esquerda, da janela para as palavras da cara, que pelos movimentos labiais, falava. Não ouvia; não queria era ouvir – não ouvir trivialidades, dessas coisas a minha vida é feita, excepto nos sonhos, e não careço de mais.
Mais por simpatia do que por vontade decido ligar o aparelho auditivo. E o descodificador que algures entre a massa branca e cinzenta possuímos. Passo a perceber o que me é enviado, antes não passavam de sons desconexos e sem sentido sintáctico ou lógico. Logo interrompo, senti como que uma paranóia a percorrer-me o corpo, e pergunto: “e o teu namorado, como é que ele está?” Nunca contabilizei o número de vezes com que a aticei com esta expressão, julgo que se tivesse tentado teria na mesma perdido a conta e acabar por saber o que sei agora: inúmeras vezes, é o que é. A resposta variava tão somente ao nível dos vocábulos empregues, o conteúdo permanecia sempre o mesmo – uma amálgama de ambiguidade que, virei mais tarde a suspeitar, tratando-se de um “isso depende de ti”. Desta feita, enquanto aguardo pela resposta do costume, quando de pronto, lá está! Dá-me a resposta: a do costume.
A modos de telenovela, com o seu quê de previsibilidade – todos sabemos o que se segue, ou no mínimo a nossa suspeita aproxima-se daquilo que o será – sou agredido – igualmente pela enésima vez – com questão semelhante: “E a tua, Pedro? Como é que ela está?” Respondia-lhe sempre com a invariável sinceridade da mentira. Não seria diferente agora. “Está bem. Mas sabes, se calhar já esteve melhor.” Inventava mil confusões, das quais oitocentas inverídicas – duzentas tretas que abalam uma relação no dia a dia não são mais do que banais, o sal da relação: chamam-lhe alguns.
A nossa estratégia primava pela semelhança. Sempre à defesa, sempre à espera que fosse o outro a dar o primeiro passo. O intuito, o objectivo, esses desconfio que eram sempre os mesmos: cala-te, eu também me calo, junta a tua à minha (sabem bem o quê) – abandonemos as mentiras, os jogos. Mas o jogo era parte integrante do Jogo: havia um passado a defender, uma reputação que construíramos ao longo de vivências com amigos comuns – a certeza é que era a proximidade que nos afastava.
Olho nos olhos dela depois de lhe ter dado a resposta que me convinha. Não sei sequer se tem namorado, se não será uma invenção, mais um joguete, para combater ao meu lado de igual para igual. Eu não podia negar uma relação a que todos, aqueles que nos eram comuns, assistiam quotidianamente. O dela, o “presumível”, julgo que ninguém alguma vez o conheceu, nem os amigos comuns que o deixaram de ser para ambos – virei a saber mais tarde.

Molho os lábios com Bushmills de 8 anos – ela entretém-se com uma long drik qualquer –, quando a minha vontade me impelia a despejar aquele copo em balão num só trago (tenho que manter as aparências: mais do que séria a mulher de César tem que parecê-lo). Pergunto-me sobre o que está mal, mas só para mim e baixinho – não fosse ela ouvir ou perscrutar qualquer emoção estranha nos meus olhos; e ela sabia olhar-me nos olhos, o que me trazia sentimentos de desconforto. Sempre fui e continuo a ser assim. Se os olhos são, em facto, as janelas da alma, então é seguramente essa a razão pela qual quando falo, quando falo!, escondo os olhos, revirando com eles tudo ao meu redor à excepção dos olhos de alguém que me é especial.
Continuo a falar. Ela responde. Ela continua a falar. Eu respondo. Cá estamos, bem vindos novamente ao mundo da trivialidade.
Parece que só nos voltamos a olhar quando decidimos que a viagem por hoje está terminada. Abandonamos o comboio. Lá está o rio. A paisagem, por impossível que julguem, continua como os nossos sentimentos antes de termos empreendido noutra viagem: igual; pior do que igual, inalterável.

‘Por quem já não volta
por quem não esqueci’
(Sétima Legião)

De volta ao nosso tempo, de regresso à nossa galáxia e ao nosso planeta em particular.
Do fundo da garganta um nó impede que grite aquilo com que o meu pensamento me atormenta: À obra!!! Assim é que não vamos a lado nenhum – como a viagem que descrevi.

Agradeço ao leitor que (ainda) tem paciência para ler estas publicações, mas escreveria mesmo só para mim.
Afinal, é muito pela ficção que se constrói a realidade.

Publicado por PmA em abril 29, 2004 08:21 PM
Comentários

Pois eu li duas vezes. E gostei.
É um belo texto. Belo pela construção e pelo que nos diz.

Afixado por: João Norte em abril 29, 2004 09:26 PM

Eh xolas, isto tá a ficar conhecido!
:-)
Amanhã comento o texto.
;)

Afixado por: em abril 30, 2004 12:46 AM

Muito bom!
Se isto é o que penso, pode ser perigoso.
Mas, perigoso ou não, aconselho a audição atenta do "You only live twice", album Zima junction, do Mark Burgess.
Um cheirinho (não é desses pá!):
You only live twice, or so it seems.
One life for yourself and one for your dreams.
...
This dream is for you. So pay the price.
Make one dream come true. You only live twice...

Afixado por: em abril 30, 2004 10:28 AM

E o que é que pensas que possa ser perigoso?
No pensar não há perigo, ele só aparece aquando do intento da acção ;)
(sim, NR, o que pensas que poderá daqui ser perigoso?)
E homem corajoso, este joão, que até leu duas vezes!
Só surpresas!!!

Caríssimos, um abraço.

Afixado por: Pedro M Almeida em abril 30, 2004 11:02 AM

Gostava era de saber pq não assinei...
:P

Afixado por: NR em abril 30, 2004 03:08 PM

Se calhar tinhas-te esquecido da caneta.
(eheheheh- que sêca!)

Afixado por: Pedro M Almeida em maio 10, 2004 12:14 AM