(ATENÇÃO: esta publicação poderá ser ofensiva para crentes e praticantes de religiões de raiz juidaico-cristã)
A Paixão
Vi “A Paixão de Cristo” uma única vez. Porém, considero ter sido suficiente para deixar os comentários que se seguirão. Entrei na sala com todos os sentidos despertos, não se desse o caso de qualquer coisa escapulir à teia mental que tinha montado (e é óbvio que umas quantas, muitas, furtaram-se a toda a minha sensibilidade).
Vi uma vez e ouvi milhares de comentários por dezenas de ‘críticos’ sequiosos, como eu, que tinham alguma coisa para dizer.
Nem nas suas mais loucas conjunturas o sr. Mel Gibson expectava o astronómico sucesso da sua “Passion”. Pena que tenha sido pelos motivos errados: uma pudica polémica, que me parece infundada, cercou a sua obra que bem merecia os seus créditos pela espantosa manipulação de efeitos iconográficos, quanto a mim a melhor de sempre aplicada à vida quotidiana. Outra vitória para a saber fazer política do que duma política de saber fazer (e o Mel soube mesmo fazer – achei deliciosa a manobra de marketing que foi vermos um filme integralmente falado em aramaico e latim).
Cristo é redenção e após este filme fiquei com a danada impressão que urge o seu regresso. O seu regresso a fim de redimir e voltar a pagar o preço pela salvação da humanidade; é nos pequenos pormenores que reparo que continuamos mesquinhos, interesseiros, caprichosos e muito mais, em pequenos pormenores a que vamos assistindo ao desenrolar da fita; séculos mais tarde e parece que nada se aprendeu.
É um facto que o filme prima pela violência e apela aos sentimentos através dos sentidos. Facto é que a história já foi escrita. Facto é que muitos dos clássicos do cinema discorrem nesta matéria. Mel aproveitou uma nova perspectiva de vermos a história de sempre, uma nova abordagem para vermos o que já o foi. Optou por mostrar uma das facetas menos exploradas pelo cinema: o sofrimento constante e continuado, e fá-lo de forma a que quase conseguimos ‘cheirar’ a dor. Fê-lo, no entendimento de alguns, bem demais. Quanto a mim, fê-lo pela diferença e pelo acto criador que é dar forma a uma obra e ‘só’ isso.
Revolto-me contra a revolta daqueles que vêem o filme e acabam invariavelmente por condenar a brutalidade dos homens (seja o judeu, seja romano). Não fui à estreia, pelo que ainda pude ouvir, aqui e ali, alguns comentários referentes à película: que a ou o não sei quantos, indignado ou não resistindo à pressão, saiu a dada altura da sala; como elas – mais do que eles – verteram tantas ou mais lágrimas do que a sra. Maria Madalena enquanto aquilo – o filme – durou. Meio incrédulo, deparo-me com o mesmo fenómeno quando assisto ao desenrolar do ecce homo de Mel Gibson.
Não sou insensível nem desdenho ele ou ela que não tenha mantido as emoções mais estáveis durante o visionamento; é, em boa verdade, um visionamento impressionante.
Detesto o sofrimento quando em demasia (quem não sofre ou sofreu por amor?). Repugna-me de forma veemente o tratamento a que é sujeito um corpo humano, ainda para mais quando explicitamente mostrado, como aquela que nos prenda o realizador.
Porém, algo ultrapassa, em todas as fronteiras, esta minha repulsa: o nojo de todos serem sensíveis ao sofrimento quando se trata só e apenas do sofrimento do ‘chefe’. Caríssimos, então e todos os outros?
Quantos os que na mesma medida padeceram com as intrincadas malhas da justiça. Mas não, esses não nos podem salvar e lavar a alma – não merecem o nosso tempo ou mesmo um esgar de pensamento. A violência, ou a forma como a aplicamos, é hoje diferente, mas em essência somos carne da mesma unha.
Quem não apontou o dedo a Pedro por negar três vezes, algo que lhe tinha sido predestinado? Quem não apontou o dedo, de forma peremptória, a Judas, o traidor, mas traidor sem o qual a profecia não se cumpriria? Também o seu destino estava delineado. Se Judas não traísse quem te tinha salvo leitor? Quem não gracejou ou, pelo menos, não achou justo quando o desgraçado na cruz foi bicado pelo corvo? Se estivesse hoje na ‘cruz’ com Cristo a seu lado reconhecê-lo-ia?
Pensamos saber julgar a história, pois esta é passada, mas não nos conseguimos julgar no decorrer do presente, na vida do quotidiano, pois não? Já não somos tão sábios a distribuir julgamentos.
Muitos sofreram ao longo da história, da nossa história, a do Homem, e quem pode dizer que mais ou menos que aquele homem especial na cruz? A diferença reside mesmo nisso, no ser-se especial. O nosso semelhante é tratado à semelhança de sempre, passando a redundância. É caso para dizer que só recordamos quem nos interessa.
Em ninguém, após o final da sessão, vi estas palavras. Em ninguém, srs. católicos apologistas do humanismo. Sentem-se salvos por carpirem o sofrimento de Cristo? Eu não me sentia com toda a certeza se ignorasse a palavra ‘irmãos’, que significa iguais, tantas vezes proferidas pelo Salvador. Se é crente, logo se vê... afinal vamos mesmo todos acabar por dar o último suspiro por um destes dias.
Cristo perdoou e é bom, para nós, que volte a perdoar.
(Dei gratia)
Olha, afinal gostei...
:P
admira-me, mas agardeço-te (és cheio de surpresas).
um grande abraço.