Tiraste-me da cama já passava das três da tarde. Prática comum, dormi mal e o meu humor não estava orientado no sentido de te aturar. Resmunguei para comigo quando, com dois olhares quase em simultâneo, mirei o telemóvel e o despertador. Bocejei e pensei, a modo de autómato, que não ia atender aquela coisa; afinal se estava com o som desligado, limitando-se a vibrar, era porque prescindia de chamadas. Mas, afinal, se prescindia mesmo porque raio o deixei ligado? Força do hábito, foram muitos anos a seguir a mesma rotina – mas será que acredito verdadeiramente nisso?
Foi após um suspiro que atendi. O número era o teu e a voz logo a reconheci. Foste importante para me levar a atender – muitos são os ignorados – mas o desenrolar de uma pálida conversa não me trouxe nada de novo (acho que, bem a fundo, estamos sempre à espera de uma novidade; desconfio que talvez até faça parte do significado da vida). A verdade é que, embora a tua importância, o que ficou dito foi insignificante; insignificante como quase todas as restantes e anteriores vezes.
Já com o telefone desligado não pensei em voltar a dormir; confesso: é que, mesmo antes dele tocar, eu não estava a dormir. Permanecia na cama no enredo dos meus sonhos, sonhos que teimo em ter acordado embora façam com que com alguma regularidade questione a minha sanidade. Mas no real do sonho também eu lá sou real, é o que importa – vivendo e sobrevivendo a uma vida dupla, sabendo que uma é mentira.
Foi com um suspiro que me relembrei que sou o ‘eterno estudante’. Merda, esqueci-me de avançar com os trabalhos da faculdade. Foi com um suspiro que cortei com o sonho e, já sentado com o tronco debruçado nos joelhos, acordei, agora sim, para a realidade.
Para todos os que sonham.