março 30, 2004

‘Sete anos remetidos ao Silêncio’

O que mal começa, mal se remedia


Sete anos no Tibete. Foi o título escolhido para um filme. Sete anos, não no Tibete, mas a subir e a descer cordilheiras, muitas das vezes espinhosas, foi a fúria de viver que definiram (mais de) sete anos de vida. Em concreto, os últimos.
Como dois alpinistas jovens, irreverentes, sem experiência, com a desmedida ambição do mundo, foi assim que começamos a trilhar entre vales e montanhas na busca da excitação do pico mais alto; o espírito era outro, o limite antevia-se pouco abaixo do céu. Tal como a chama da paixão, cega-nos e faz-nos agir no limiar do impossível – nada havia a perder e a cada passo dado em frente encontrávamos o sublime da, mais uma, vitória. Era o que nos movia. Nada havia a perder.
Há medida que o tempo passa e deixa uma indelével marca da sua corrosão, também a energia que emanava desses espíritos dos jovens alpinistas se corrói, molda-se à objectividade e ao real. O imaginário apenas se vislumbra como uma chama sem fôlego que parece agora inalcançável. Sete anos (ou mais), percorrendo o mundo e a vida no incessante carrossel do sobe e desce os dois são os mesmos, mas sem serem o que eram. De novo a marca obtusa e obstrusa do tempo: a cristalização; nada mais que a simples cristalização, estado que conquista a irreverência para em seu lugar dar voz à experiência que já não se deixa enganar por armadilhas mal montadas que só quem num estado de ceguez se encontra é capaz de não visionar. Claro, tudo tem o seu preço. O limite deixa de ser aquele ser que, ao crepúsculo, parece mesmo tocar o céu... se ao menos esticasse o braço, quem sabe se não o tocaria mesmo? A consagração do limite opera-se ao nível de alguns passos acima do solo, não fossemos nós correr o risco de engolir o engodo, aquele que agora, com o coração frio estigmatizado por uma chama que um dia existiu, só os seres não dotados pela divina oferenda da razão que a nós foi oferecida engolem sem ver, cegos pela impossibilidade de cogitação, sem o calculismo com que (quase) tudo o que nos aparece como sombrio consegue ser desvendado num segundo; a teia é evitada, o engodo ignorado. Chamam-lhe o sonho de crescer. Somos (estamos) mais velhos. Desde crianças que o quisemos, verdade? Brincamos às profissões de adultos, fingimos realidades que são o real do adulto, que na criança são, à luz do seu imaginário, o que queríamos ser já. Breve ilusão, ainda que perdure alguns anos, pois à luz da ferroada que nos acorda para um mundo onde todos (ou quase) ‘brincamos’ à mesma coisa: porque queremos crescer tão rápido? Para a frente ainda é possível andar, ou pelo menos ir andando; o retorno ao passado é-nos interdito. Ficam-nos enevoadas memórias de tempos que foram e nunca mais o serão, e, mais profundamente triste, toldadas pela percepção de seres que sendo os mesmos já não o são – quais delas, quais destas imagens que nos ficam encarnam a verdade? Não teremos memórias que nos mentem, quero dizer, não há nesta amálgama toda algumas, entre elas, que mais não são do que constructos nossos ‘feitos à medida’, como convém?
As cordilheiras mantêm-se, a vontade... esta é... responde agora a premissas sempre a priorísticas que mais não nos dão que asas de galinha: a ilusão de voar mantém-se pela posse de um par de asas, porém sabemos que não ultrapassam senão aquilo que gostaríamos de fazer mas que nunca alcançaremos: o voo da águia que espreita entre a ravina da montanha, altiva e majestosa; já nos satisfazíamos com o voo do pardal, embora mais limitado, sempre mais bem possibilitado; nós já não podemos voar. Igual a toda a indumentária restante, as asas de galináceo são só mais um pobre adereço que, não percebo porquê, continua a fazer sentirmo-nos grandes.

- 3 de Janeiro de 2004, em publicação póstuma -
(a continuar...)

Publicado por PmA em março 30, 2004 12:06 AM
Comentários

A quem se dirige.... o patinho feio não sabia voar, ninguém percebia os seus encantos, nem ele! o tempo passou, o nosso amigo tempo, e aquele que outrora era feio e desajeitado tornou-se num lindo cisne capaz de vôos mais magníficos que mais forte das águias. Porquê? não porque a natureza assim o imperou mas porque o patinho, outrora feio, acreditou...

Afixado por: em abril 7, 2004 05:20 PM