março 30, 2004

La Legion

Muitas vezes me tenho perguntado: que interesse terá a Legião Estrangeira para uma alma pacífica e branda como a minha? Está claro e bem de ver que farei tábua rasa de tudo aquilo que a Legião Estrangeira significa para os outros – eu, com as minhas razões, me tentarei explicar. Como segue.

Penso que talvez um “psicólogo” apressado e pouco arguto veja, nesta minha atracção um instinto sadomasoquista com origem numa irresolvida relação parental; uma neu-rose persistente e rebelde que radicaria nos jogos de poder e dominação do meu pai sobre mim, da minha resistência heróica à subjugação e a aprendizagem dos jogos de bastidores, pela manipulação do terceiro elemento – a mãe: o elemento mais forte do triângulo. Tudo seria o resultado da guerra eterna entre as diferentes vontades de po-der e dos jogos – sempre os eternos jogos – os jogos em que só a vitória interessa e vale tudo para que se consiga sair vitorioso. A desigualdade na arena em que se movimenta o gladiador romano, que luta com feras, bestas, homens e armadilhas, e por fim com a vontade soberana do juiz, assemelha-se em tudo àquilo que pretendo explicar que, se ainda se não percebeu é: na Legião usarei qualquer arma que me torne vencedor.

A vitória. Se penso nisto algumas vezes, outras há em que penso que ela, a vitória mesma, calculada ao milímetro, traçada por um geógrafo no mapa das coisas possíveis, reais, que digo eu: reais – verosímeis, a tal ponto de terem ruído e espaço, de envelhe-cerem, de quebrarem, sem encanto, sem enigma, sem esconderem nada de nada... oh sim, como a realidade é nauseabunda até ao vómito com as suas coisas que se dividem em conhecidas e desconhecidas. Mas que é que eu conheço? O que é que, segundo jul-go, desconheço – há algo escondido que não vejo e algo à vista que não se descobre totalmente? Porquê este absurdo, este paradoxo, de estar sempre a caminho, sempre quase lá, sempre facticiamente real, pesadamente real e irrealmente verdadeiro. Mas, onde nos leva isto? Que penso eu do que serei – legionário? – uma vez que imagino a realidade como reflexo ou sombra, ou, pior (vomito o fígado ao dizê-lo), duplo metafísico... E aqui, confesso, tenho vontade de chorar: tanto esforço para reduzir o objecto à sua essência, expurgá-lo da sua sombra e, quando me apercebo, vejo que a sombra lhe é própria, a sombra dá sentido, o real serve a sombra e a sombra o real, e sem a som-bra não saberíamos o que era isso – o real? Onde quero eu chegar com isto? Não basta conhecer a arte de triunfar, é preciso demiurgizar num palco em que se sinta o “rapport”, em que haja transferência, afecto, insegurança, a neurose do boxeur dentro do ringue: quer vencer, mas não só, quer derrubar o adversário, mas com estilo, quer a-gradar, ouvir urras por servir bem o voyeurismo alheio. Aqui já nos aproximamos mais daquilo que eu pretendo da Legião - “o propósito de existir do boxeur”: uma vitória, uma derrota, um jogo de sombras e o vício mais caro do ser humano: a sensação de “sentido”. Quer fosse um gancho de direita que me esmagasse o crânio ou o massacre indiscriminado de um alvo determinado pela hierarquia da guerra, isto é tudo: sentir-me vivo.

Publicado por Adriano em março 30, 2004 12:02 AM
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